sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

#258 - "Retirados à altura da sua idade, ouviam." (Fernando Echevarría)

Retirados à altura da sua idade, ouviam.
Mas ouviam frequências onde o rumor do mundo,
esbatido, somente amanhecia
azul visível, atento timbre e pulso.
Ouviam tudo quanto a si se ouvia
no concerto de tudo.
E nessa solidão de intensa companhia
em que a altura da idade era um azul profundo.


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

#257 - VOLÚPIA (Florbela Espanca)

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frémito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade…
A nuvem que arrastou o vento norte…
-- Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço…
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças…




sábado, 24 de dezembro de 2016

#256 - NATAL À BEIRA-RIO (David Mourão-Ferreira)

É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
a trazer-me da água a infância ressurecta.

Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
que ficava, no cais, à noite iluminado...

Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
mais da terra fazia o norte de quem erra.

Vem tu, Poesia, vem agora conduzir-me
à beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?



sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

#255 - NATAL CHIQUE (Vitorino Nemésio)

Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na minha pressa e pouco amor.

Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.

Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado...
Só esse pobre me pareceu Cristo.



#254 QUATRO (Matilde Rosa Araújo)

(Em memória do grande Amigo
Joaquim Manuel Maia de Jesus)

A rosa vermelha última a que te prendeste
A rosa vermelha nas mãos duma menina
Aquela maçã que tu deste e não comeste
E nestes quatro versos está a tua sina

Partiu-se a lua num quarto desesperado
E entrou louca pelos quatro vidros do hospital
Quatro homens levaram teu corpo gelado
E a menina escondeu duas mãos no avental

Ali na encruzilhada de todos os ventos
Tristes contando às ondas tão triste nova
Braços de pinheiros bravos foram lamentos
À rosa dos ventos lendo a verdade toda

Só aquela cadela que corria ao luar
Anda a uivar pelos caminhos a tua morte
São quatro patas pelo chão a caminhar
Arrastando a raiva humana da tua sorte.



sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

#253 - CANÇÃO DUMA SOMBRA (Teixeira de Pascoais)

Ah, se não fosse a névoa da manhã
E a velhinha, para ouvir a voz das cousas,
                    Eu não era o que sou.

Se não fosse esta fonte, que chorava,
E como nós cantava e que secou...
E este sol que eu comungo de joelhos,
                     Eu não era o que sou.

Ah, se não fosse este luar, que chama
Os espectros à vida e se inflitrou,
Como fluido mágico, em meu ser,
                    Eu não era o que sou.

Ah, se não fosse o vento, que embalou
Meu coração e as nuvens, nos seus braços,
                    Eu não era o que sou.

Sem esta terra funda e fundo rio,
Que ergue as asas e sobe, em claro voo;
Sem estes ermos montes e arvoredos,
                    Eu não era o que sou.



terça-feira, 13 de dezembro de 2016

#252 - TÚMULO DO POETA DESCONHECIDO (Carlos Ávila)

uma brochura
que mal se sustenta de pé
na biblioteca pública
de uma cidadezinha qualquer

as páginas amareladas
de uma antologia
com trezentos e tantos
tantos tantos "poetas"

um título
perdido
(muito cedo, muito cedo)
nas prateleiras de um sebo

apenas um nome
(nowhere man)
na babilônica
lista telefônica

numa obscura
repartição pública
(beneficência da língua portuguesa)
sem cura

um bando bêbado
no fundo do bar
olhando pro nada
e pensando que é o mar

no tumulto da vida -- o túmulo
requiescat in pace
& não volte jamais



segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

#251 - DESLUMBRAMENTOS (Cesário Verde)

Milady, é perigoso contemplá-la,
Quando passa aromática e normal,
Com seu tipo tão nobre e tão de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.

Sem que nisso a desgoste ou desenfade,
Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,
Eu vejo-a, com real solenidade,
Ir impondo toilettes complicadas!...

Em si tudo me atrai como um tesoiro:
O seu ar pensativo e senhoril,
A sua voz que tem um timbre de oiro
E o seu nevado e lúcido perfil!

Ah! Como me estonteia e me fascina...
E é, na graça distinta do seu porte,
Como a Moda supérflua e feminina,
E tão alta e serena como a Morte!...

Eu ontem encontrei-a, quando vinha,
Britânica, e fazendo-me assombrar;
Grande dama fatal, sempre sòzinha,
E com firmeza e música no andar!

O seu olhar possui, num jogo ardente,
Um arcanjo e um demónio a iluminá-lo;
Como um florete, fere agudamente,
E afaga como o pêlo dum ragalo!

Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,
O modo diplomático e orgulhoso
Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.

E enfim prossiga altiva com a Fama,
Sem sorrisos, dramática, cortante;
Que eu procuro fundir na minha chama
Seu ermo coração, como um brilhante.

Mas cuidado, milady, não se afoite,
Que hão-de acabar os bárbaros reais;
E os povos humilhados pela noite,
Para a vingança aguçam os punhais.

E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,
Sob o cetim do Azul e as andorinhas,
Eu hei-de ver errar, alucinadas,
E arrastando farrapos -- as rainhas!



sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

#250 - CLAMAVI AD TE (Carlos Queirós)

Apenas hoje! Apenas uma vez,
Fala de modo que a verdade seja
Tão clara e transparente, que eu a veja
Num cristal da mais pura limpidez!

Talvez seja loucura o que deseja
A minha insaciedade. Sim, talvez...
Que tu fosses, falando, a outra que és,
Com a alma nos lábios, quando beija.

Mal empregado privilégio, a fala,
Que traduz a verdade em que pensamos,
As palavras gastando em ocultá-la!

Que seja assim quando se odeia, vamos...
Mas para quê se dissimula ou cala,
Quando tudo nos diz que nos amamos?!



terça-feira, 6 de dezembro de 2016

#249 - ARRÁBIDA (Júlio Evangelista)

O vento bate na face


De quem sobe àquela serra.


Vento que por ali erra


Bate na face a quem passe


Perto do cimo da serra.




Bate forte, o vento forte,


Chicoteando com força,


Ao vir das bandas do norte,


Chicoteando com força,


Dono da serra e da morte.




Consente, vento, que eu passe


Pelo alto desta serra


E não me batas na face


Porque, se mais não bastasse,


Basta eu ser da tua terra.




Não grites assim tão forte


Nem te exaltes contra mim,


Porque eu também sou do norte:


Donde tu vens, também vim,


Vento que ventas do norte.




Venho ver frei Agostinho;


Trazer ao Frade saudades


Das verdes terras do Minho:


Venho falar de saudades


Com o Poeta Agostinho.




Morreu o Sebastião


Que lhe falava, falava,


Das coisas do coração.


E o frade está desolado


Era quase como um irmão!...




Ele mora ali em cima


E a conversa não demora.


Venho falar-lhe do Lima,


Venho falar-lhe de Ponte,


E outras coisas que ele ignora.




Regresso depois ao Minho,


Vento que sopras do norte


E guardas Frei Agostinho.


Se um dia quiser recados,


Traze-los tu, vento norte?






Arrábida, 8/3/53




domingo, 4 de dezembro de 2016

#248 - CHAMARAM-ME CIGANO (José Afonso)

Chamaram-me um dia
Cigano e maltês
Menino, não és boa rês
Abri uma cova
Na terra mais funda
Fiz dela
A minha sepultura
Entrei numa gruta
Matei um tritão
Mas tive
O diabo na mão

Havia um comboio
Já pronto a largar
E vi
O diabo a tentar
Pedi-lhe um cruzado
Fiquei logo ali
Num leito
De penas dormi
Puseram-me a ferros
Soltaram-me o cão
Mas tive o diabo na mão

Voltei de charola
De cilha e arnez
Amigo, vem cá
Outra vez
Subi uma escada
Ganhei dinheirama
Senhor D. Fulano Marquês
Perdi na roleta
Ganhei no gamão
Mas tive
O diabo na mão

Ao dar uma volta
Caí do lancil
E veio
O diabo a ganir
Nadavam piranhas
Na lagoa escura
Tamanhas
Que tal nunca vi
Limpei a viseira
Peguei no arpão
Mas tive
O diabo na mão

















quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

#247 - AQUI (Carlos Ávila)

continuar aqui
apesar de

roendo pedra
comendo amor

(montanhas?
são tão estranhas

acima -- impassível
l'azur l'azur l'azur...

na única cidade
com abóbada celeste

abaixo -- impossível
vida sem saída

labirintos: look around
the lonely people)

continuar aqui
à beira de

comendo pedra
roendo amor


quarta-feira, 30 de novembro de 2016

#246 - A VARIEDADE DO MUNDO (António Barbosa Bacelar)

Este nasce, outro morre, acolá soa
Um ribeiro que corre, aqui suave,
Um rouxinol se queixa brando e grave,
Um leão c'o rugido o monte atroa.

Aqui corre uma fera, acolá voa
C'o grãozinho na boca ao ninho, ua ave,
Um derruba o edifício, outro ergue a trave,
Um caça, outro pesca, outro enferoa.

Um nas armas se alista, outro as pendura
Ao soberbo Ministro aquele adora,
Outro segue do Paço a sombra amada.

Este muda de amor, aquele atura.
Do bem, de que um se alegra, o outro chora...
Oh Mundo, oh sombra, oh zombaria, oh nada!


terça-feira, 29 de novembro de 2016

#245 - "não pude amar mais nada" (Fernando Assis Pacheco)

não pude amar mais nada
não pude amar mais ninguém
e mesmo que te minta
é o contrário disso

e mesmo que te minta
é a verdade seca
posta ali às avessas;
não pude amar mais claro



quinta-feira, 24 de novembro de 2016

#244 - COLEGIAL (José Régio)

Em cima da minha mesa,
Da minha mesa de estudo,
Mesa da minha tristeza
Em que, de noite e de dia,
Rasgo as folhas, leio tudo
Destes livros em que estudo,
E me estudo
(Eu já me estudo...)
E me estudo,
A mim,
Também,
Em cima da minha mesa,
Tenho o teu retrato, Mãe!

À cabeceira do leito,
Dentro dum lindo caixilho,
Tenho uma Nossa Senhora
Que venero a toda a hora...
Ai minha Nossa Senhora
Que se parece contigo,
E que tem, ao peito,
Um filho
(O que ainda é mais estranho)
Que se parece comigo,
Num retratinho,
Que tenho,
De menino pequenino...!

No fundo da minha mala,
Mesmo lá no fundo a um canto,
Não lhes vá tocar alguém,
(Quem as lesse, o que entendia?
Só riria
Do que nos comove a nós...)
Já tenho três maços, Mãe,
Das cartas que tu me escreves
Desde que saí de casa...
Três maços -- e nada leves! --
Atados com um retrós...

Se não fora eu ter-te assim,
A toda a hora,
Sempre à beirinha de mim,
(Sei agora
Que isto de a gente ser grande
Não é como se nos pinta...)
Mãe!, já teria morrido,
Ou já teria fugido,
Ou já teria bebido
Algum tinteiro de tinta!



quarta-feira, 23 de novembro de 2016

#243 - GAZETILHA (Fernando Pessoa, enquanto Álvaro de Campos)

Dos Lloyd Georges da Babilónia
Não reza a história nada.
Dos Briands da Assíria ou do Egito,
Dos Trotskys de qualquer colónia
Grega ou romana já passada,
O nome é morto, inda que escrito.

Só um parvo dum poeta, ou um louco
Que fazia filosofia,
Ou um geómetra maduro,
Sobrevive a esse tanto pouco
Que está lá para trás no escuro
E nem a história já historia.

Ó grandes homens do Momento!
Ó grandes glórias a ferver
De quem a obscuridade foge!
Tratem da fama e do comer,
Que amanhã é dos loucos de hoje!





sexta-feira, 18 de novembro de 2016

#242 - "Todo o Verão tem a sua sombra" (Fernando Jorge Fabião)


Todo o Verão tem a sua sombra
a sua pequena morte
homens lentos nas adegas
(poços de frescura)
imaginam ofícios sublimes
presságios
pequenas conjuras

Todo o Verão tem o seu assombro
paisagens altas
onde principio a escrever
(num silêncio de sinos)
vocábulos escassos, dissonâncias
numa saudade de rosas e luz estilhaçada.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

#241 - ANTERO DE QUENTAL, O ANJO CANSADO (Emanuel Jorge Botelho)

os dias iam indo sem sair da noite.
     todas as manhãs um cão entrava nos seus passos para lhe fazer companhia.
     colocou tudo dentro de uma rasura de soneto e fechou a porta.
     fechar a alma era coisa já antiga. como uma rosa que esqueceu o seu nome e já não sabe as palavras de cor.
     a vida poucas vezes lhe deu tempo de guardar no bolso o que era do silêncio, esse riso de hiena armadilhado que põe mel no rumor do medo.

     chegou ao Campo de São Francisco à hora que acordara.
     a morte já lá estava com as asas recolhidas.
     sentou-se, deu ao cão um longo afago, aconchegou-o junto às suas pernas, e deixou pousar nos lábios o sal de duas lágrimas.
     depois, devagarinho, tirou do bolso a mão direita e deu dois tiros na morte.

     no chão, desde aquele dia, ficou o recorte de uma sombra.
     quem a vê, dá-lhe o nome de sudário.
     e reza.

Ilha de S. Miguel, Açores


quarta-feira, 2 de novembro de 2016

#240 - NO TÚMULO DUMA CRIANÇA (Augusto Gil)

(De Diodoro)

Era perfeitamente um passarinho
Esbelto, saltarico e cantador...

               Acolhe-a com carinho,
               Recebe-a com amor,
E sê-lhe levezinha, ó terra mãe!
Pois que tão leve ela te foi também...



sexta-feira, 28 de outubro de 2016

#239 - ÉCLOGA OU CANÇÃO ABANDONADA (Cristovam Pavia)

Na folha bailada
Levada
No vento,
Vai meu pensamento...

Na cinza delida
Espargida
Pelo rio,
Vai meu olhar frio...

E no teu sorriso
Da mais lisa
Quietação...
O meu coração...



quinta-feira, 27 de outubro de 2016

#238 "Anjo da infância," (Teixeira de Pascoais)

Anjo da infância,
Coroado de rosas purpurinas!
Aquele que nos vela o nascimento
E que nos embala o berço...
E, coroado,
De lírios roxos,
Há-de velar a nossa morte
E, à luz da lua, o nosso túmulo,
Pois morrer não é mais do que voltar
A antes de nascer...

 
sc. 1952
S. J. de Gatão



terça-feira, 25 de outubro de 2016

#237 - SONETO (Carlos Queirós)

De ti não quero mais do que a memória
Das breves horas idas que me deste,
Como a palma, depois duma vitória...
-- E nada mais dessa vitória reste.

De neblina um luar frio reveste
O meu passado: a infância foi-me inglória;
E dela não ficou mais do que a história
Dum menino, uma fada e um cipreste.

Não mais serei contigo neste vário
Campo, sonhando, em vaga liquescência...
Luz coada através dum aquário.

(Entanto, a serra tem a consciência
Do meu passar por ela solitário,
Como outrora, na minha adolescência).





sexta-feira, 21 de outubro de 2016

#236 - "Fruto de sol na minha boca." (João José Cochofel)

Fruto de sol na minha boca.
-- Terra tão vasta
e a vida tão pouca!

De Inverno e de Verão faça sol de Agosto.
-- Fruto na boca
deixou o seu gosto.

Assim deito meus olhos à flor do mundo.
Nem me peçam mais:
os lagos serenos têm menos fundo.



quinta-feira, 20 de outubro de 2016

#235 - AS DESENCANTADAS (Martins Fontes)

É belo ver brincarem as crianças!
É belo ver cantarem as raparigas!
Esparzindo alegrias e esperanças,
Desfolhando os amores em cantigas!

É belo ver, em tardes vitoriosas,
Os poetas, os heróis, os combatentes,
Sob as chuvas das pétalas de rosas,
Sob aplausos contínuos e frementes!

É belo ver as mães enamoradas!
É belo ver os sábios entretidos!
Por milhares de seres adoradas!
Por milhares de seres benqueridos!

Mas o que há de mais íntimo e profundo,
E mais consola o coração humano,
Sim, o que há de mais belo! é, neste mundo,
Ver um punhal no peito de um tirano!










quarta-feira, 19 de outubro de 2016

#234 - CHUVA OBLÍQUA (II) (Fernando Pessoa)

Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça...

Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro...

O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar...
Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a água no facto de haver coro...

A missa é um automóvel que passa
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste...
Súbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
Com o som de rodas de automóvel...

E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa...



domingo, 16 de outubro de 2016

#233 - "Um dia mais, sou menos que era» (José Bento)

Um dia mais, sou menos que era
há momentos: rasurei o rosto
a barba que me embuça
sem imaginação nem sono.

Mas ela não se rende. Continua
a vegetar, raiz no sangue,
a mancha que parda punge
na máscara. E derrama-se.

Esta chaga não dói, ao supurar
contra o metal contrário:
é um mênstruo inesgotável,
servil, embora másculo.

Narcisismo ancestral, a matutina
perseguição aos pêlos,
enquanto o olhar comina o insulto
dos anos que fluem sob o espelho.

A pele não repulsa nunca a lâmina:
nem ao ser já pedra musguenta
e, ao despedi-la, outros receiem
que dela ainda esta erva cresça.



sexta-feira, 14 de outubro de 2016

#232 - "Feliz do que é levado a enterrar," (Reinaldo Ferreira [F.º]

Feliz do que é levado a enterrar,
Tão indiferente como quem nasceu!
Feliz do que não soube desejar,
Feliz, bem mais feliz do que sou eu!

Feliz do que não riu para não chorar,
Feliz do que não teve e não perdeu!
Feliz do que não sofre se ficar,
Feliz do que partiu e não sofreu!

Feliz do que acha bela e vasta a terra!
Feliz do que acredita a fome, a guerra
Terrores imaginários de crianças!

Feliz do que não ouve o mundo aos gritos,
Feliz! Felizes todos e benditos
Os que Deus fez iguais às pombas mansas...







quinta-feira, 13 de outubro de 2016

#231 - INSCRIÇÃO (Camilo Pessanha)

Eu vi a luz em um país perdido.
A minha alma é lânguida e inerme.
Oh! Quem pudesse deslizar seu ruído!
No chão sumir-se, como faz um verme...



quarta-feira, 12 de outubro de 2016

#230 - TOTI CADABRA (Arménio Vieira)

(Vida e morte severina)

        «Toti Cadabra», nome exacto para um
        ser marginal.
        Estes versos são o teu epitáfio;
        depois deles nunca mais falarão de ti.

No enterro de Toti
nem padre nem gente
na campa de Toti
nem flor de finado

Na campa-buraco
teu corpo mirrado
já eras da larva
bem antes da cova

Toti Cadabra
de vida macabra
já eras cadáver
bem antes da morte

Bem antes da morte
já eras cadáver
Toti Cadabra
de vida sinistra

O grogue e a fome
são traças são bichos
já eras da larva
bem antes da cova

No enterro de Toti
nem padre nem gente
na campa de Toti
nem flor de finado.



terça-feira, 11 de outubro de 2016

#229 - CANÇÃO DO ACASO (Alexandre d'Aragão)

Hoje que os passos fugiram,
Sonoros, da terra inteira,
Que os nossos passos na poeira
Das eras mortas expiram;

Que aguarda, em vão, penitentes
Algum deserto muslim:
-- Mesmo no meio das gentes
Ardem desertos sem fim... --

Ou a montanha salutar
O Enviado que for
Lá, da planície, incubar
Novo Verbo redentor.

Hoje que o homem, sem temores,
Há muito os deuses matou,
Só tu avivas as flores
Que o cepticismo gelou.

Vais comigo, e em tudo poisa
A tua asa, em redor:
Mudas de coisa p'ra coisa
Como as abelhas de flor.

A vida, sem o saber,
Abre-te as velas bem alto,
Aonde possas de salto,
Vento do acaso, bater.

Acaso -- o perigo vencendo,
Ou ao prazer sobrevindo --
De Ícaro as asas batendo,
Ou Dafne a Apolo fugindo...

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

#228- ALDEIA (Manuel da Fonseca)

Nove casas,
duas ruas,
ao meio das ruas
um largo,
ao meio do largo
um poço de água fria.

Tudo isto tão parado
e o céu tão baixo
que quando alguém grita para longe
um nome familiar
se assustam pombos bravos
e acordam ecos no descampado.





sexta-feira, 7 de outubro de 2016

#227 - NAVEGAÇÃO À VELA (Joaquim Namorado)

Segue:
tens nas bússolas todos os nortes
e nos sextantes
as alturas de todas as estrelas,
que foram feitas só para te guiar.

Segue,
nos teus mapas
estão marcadas todas as loxodromias
e nos portos
os cais mansos
estendem-te os braços maternais.

Vai
pelo caminho seguro
na certeza de aportar.
Vai
nos vapores das companhias
com baleeiras nos decks
e S.O.S. nas telegrafias
e cintos de salvação.

Vai
pelo boulevard iluminado,
pelos caminhos traçados
pelas velhas caravanas
do tempos dos Ramsés...

Mas deixa
que eu arrisque a minha vida
nas encruzilhadas escuras
dos bairros criminais,
e vá só
pelos desertos
com simouns e miragens
fora das rotas fatais;
deixa
que eu viva a aventura
sem bússolas e sem astros
-- como nos contos da velha pirataria
que a mim próprio eu contava
nos meus tempos de menino
e em que eu mesmo era o herói
e herói sempre invencível --
que eu amo só
as tempestades bravas
que partem os lemes e os mastros
e rasgam as velas
(asas agonizando nos topos
entre tufões)
e as ondas
grandes como montanhas
que nos arrastam das estrelas aos abismos;
e as marés irresistíveis
que me encalham nos baixios...
Que eu amo só
a vida arriscada
numa espelunca esquecida
duma rua de Xangai
num duelo de facada.

Vai
pelos caminhos seguros
nos vapores das companhias
com certeza de aportar...
deixa
que eu continue sendo
o último tripulante
da fragata naufragada
neste mar dos tubarões.



quinta-feira, 6 de outubro de 2016

#226 - ESPERANÇA (Vicente de Carvalho)

Só a leve esperança em toda a vida
disfarça a pena de viver, mais nada;
nem é mais a existência, resumida,
que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
sonho que a traz ansiosa e embevecida,
é uma hora feliz, sempre adiada
e que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
árvore milagrosa, que sonhamos
toda arreada de dourados pomos,

existe, sim; mas nós não na alcançamos
porque está sempre apenas onde a pomos
e nunca a pomos onde nós estamos.





terça-feira, 4 de outubro de 2016

#225 - A UMA TRANÇA DE CABELOS NEGROS (Jerónimo Baía)

Diversa em cor, igual em bizarria
Sois, bela trança, ao lustre de Sofala;
Luto por negra, por vistosa gala,
Nas cores, noite, na beleza, dia.

Negra, porém, de amor na monarquia
Reinais, senhora, não sereis vassala;
Sombra, mas toda a luz não vos iguala,
Tristeza, mas venceis toda a alegria.

Tudo sois, mas eu tenho resoluto
Que sois só na aparência enganadora,
Negra noite, tristeza, sombra, luto.

Porém, na essência, ó doce matadora,
Quem não dirá que sois, e não diz muito,
Dia, gala, alegria, luz, senhora?



segunda-feira, 3 de outubro de 2016

#224 - POEMA DE SETE FACES (Carlos Drummond de Andrade)

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, porque me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.



sexta-feira, 30 de setembro de 2016

#223 - "Os antigos eram jovens, e nós," (António Franco Alexandre)

Os antigos eram jovens, e nós,
disse Bacon num lúcido momento,
somos velhos, embrulhados em
constante movimento. Hoje podia
ter vinte anos, um corpo diferente
capaz de reflectir
o sol, que além das nuvens brilha;

saberia, com arte de palavras,
dizer, do céu, os nomes mais completos;
de barbas brancas visitando asilos
os nossos filhos nos dariam fama.
E ainda assim alguma
pequena coisa perderia: o céu, talvez,
na sua cor mais fria;

manhãs de temporal, quando distantes
relâmpagos azuis cobrem a terra;
o cheiro a chuva, o sabor de alguns frutos;
estória por contar, livros por ler;
a sábia opinião do chanceler;
e sobretudo, no teu rosto, o véu
do antigo amor chamado juventude.



quinta-feira, 29 de setembro de 2016

#222 - IMAGEM (Alberto de Lacerda)

No filme azul do desdobrado céu
decantarei a mínima magia
das sensações mais puras, melodia
da minha infância, onde era apenas Eu.

Da realidade nua desce um véu
que, já sem mar, apenas maresia,
me vem tecer aquela chuva fria
que prende esta janela ao claro céu.

Despido o ouropel desvalioso,
já não apenas servo, mas o Rei
da luz da minha lâmpada romeira,

assim procuro o centro misterioso
do mundo que hoje habito, onde serei
concêntrica expressão da vida inteira.





terça-feira, 27 de setembro de 2016

#221 - "É pela tarde, quando a luz esmorece" (Reinaldo Ferreira [F.º])

É pela tarde, quando a luz esmorece
E as ruas lembram singulares colmeias,
Que a alegria dos outros me entristece
E aguço o faro para as dores alheias.

Um que, impaciente, para o lar regresse,
As viaturas que cruzam cheias
Dos que fazem da vida uma quermesse,
São para mim, faminto, odor de ceias.

Sentimento cruel de quem se afasta,
Por orgulho repele, e se desgasta
No esforço de fugir à multidão.

Mas castigo de quem, por imprudente,
Já não pode deter-se na vertente
Que vai da liberdade à solidão.



segunda-feira, 26 de setembro de 2016

#220 - A ESTRELA (Manuel Bandeira)

Vi uma estrela tão alta,
vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sòzinha
luzindo no fim do dia.

Por que da sua distância
para a minha companhia
não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?

E ouvia-a na sombra funda
responder que assim fazia
para dar uma esperança
mais triste ao fim do meu dia.



domingo, 25 de setembro de 2016

#219 - ESTA É DE LOOR DE SANTA MARIA, COM'É FREMOSA E BOA E À GRAN PODER. (Afonso X, O Sábio)

 Rosa das rosas e Fror das frores.
Dona das donas, Senor das senores.

Rosa de beldad' e de parecer
e Fror d'alegria e de prazer,
Dona en mui piadosa seer,
Sennor en toller coitas e doores.
   Rosa das rosas e Fror das frores...

Atal Sennor dev' ome muit' amar,
que de todo mal o pode guardar;
e pode-ll' os peccados perdõar,
que faz no mundo per maos sabores.
   Rosa das rosas e Fror das frores...

Devemo-la muit' amar e servir,
ca punna de nos guardar de falir;
des i dos erros nos faz repentir,
que nos fazemos come pecadores.
   Rosa das rosas e Fror das frores...

Esta donna que tenno por Sennor
e de que quero seer trobador,
se eu per ren poss' aver seu amor,
dou ao demo os outros amores.
   Rosa das rosas e Fror das frores...


quinta-feira, 22 de setembro de 2016

#218 - PARTIR!... (Manuel da Fonseca)

Eu vou-me embora para além do Tejo,
não posso mais ficar!

Já sei de cor os passos de cada dia,
na boca as mesmas palavras
batidas nos meus ouvidos...
-- Ai as desgraças humanas destas paisagens iguais!...
Abro os olhos e não vejo
já não ando, já não oiço...
Não posso mais...
Grita-me a Vida de longe
e eu vou-me embora para além do Tejo.

Passa a ave no céu bebendo azul e diz:    Vem!
O vento envolve-me numa carícia,
envolve-me e murmura: -- Vem!
As ondas estalam nas praias e vão mar fora,
as mãos de espuma a prender-me os sentidos
chamam no fundo dos meus olhos: -- Vem!

-- Camaradas, eu vou, esperai um pouco...
Ai, mas a vida nunca espera por ninguém...
E a noite chega vingadora;
o vento rasga-me o fato,
as ondas molham-me a carne
e a ave pia misticamente no ar;
abro os olhos e não vejo,
já não ando, já não oiço
-- e fico, desgraçado de ficar!...





quarta-feira, 21 de setembro de 2016

#217 - BOAS NOITES (João de Deus)

Estava uma lavadeira
A lavar numa ribeira
Quando chega um caçador:

-- Boas tardes, lavadeira!

-- Boas tardes, caçador!

-- Sumiu-se-me a perdigueira
Ali naquela ladeira;
Não me fazeis o favor
De me dizer se a brejeira
Passou aqui a ribeira?

-- Olhai que, dessa maneira,
Até um dia, senhor,
Perdereis a caladeira,
Que ainda é perda maior.

-- Que me importa, lavadeira!
Aqui na minha algibeira
Trago dobrado valor...
Assim eu fora senhor
De levar a vida inteira
Só a ver o meu amor
Lavar roupa na ribeira!

-- Talvez que fosse melhor...
Ver coser a costureira!
Vir de ladeira em ladeira
Apanhar esta canseira,
E tudo só por amor
De ver uma lavadeira
Lavar roupa na ribeira...
É escusado, senhor!

-- Boas noites,... lavadeira!

-- Boas noites, caçador!...




terça-feira, 20 de setembro de 2016

#216 - UMA CANTIGA (Armindo Rodrigues)

O que da razão não faz
uma firme barricada
de que é que será capaz
senão da dor de ser nada?
Pois vale a pena viver
a contrariar a vida?
Antes a vida perder
do que esta morte fingida.
Fique às nuvens e ao luar
a cobardia do céu.
Só quem sempre se afirmar
nunca de homem se perdeu.



segunda-feira, 19 de setembro de 2016

#215 - "o poeta que há em mim" (Chacal)

o poeta que há em mim
não é como o escrivão que há em ti
funcionário autárquico

     o profeta que há em mim
     não é como a cartomante que há em ti
     cigana fulana

o panfleto que há em mim
não é como o jornalista que há em ti
matéria paga

     o pateta que há em mim
     não é como o esteta que há em ti
     cana a la kant

o poeta que há em mim
é como o vôo no homem pressentido



sexta-feira, 16 de setembro de 2016

#214 - "A que morreu às portas de Madrid," (Reinaldo Ferreira [F.º])

A que morreu às portas de Madrid,
Com uma praga na boca
E a espingarda na mão,
Teve a sorte que quis,
Teve o fim que escolheu.
Nunca, passiva e aterrada, ela rezou.
E antes de flor, foi, como tantas, pomo.
Ninguém a virgindade lhe roubou
Depois dum saque -- antes a deu
A quem lha desejou,
Na lama dum reduto,
Sem náusea mas sem cio,
Sob a manta comum,
A pretexto do frio.
Não quis na retaguarda aligeirar,
Entre «champagne», aos generais senis,
As horas de lazer.
Não quis, activa e boa, tricotar
Agasalhos pueris,
No sossego dum lar.
Não sonhou minorar,
Num heroísmo branco,
De bicho de hospital,
A aflição dos aflitos.

Uma noite, às portas de Madrid,
Com uma praga na boca
E a espingarda na mão,
À hora tal, atacou e morreu.

Teve a sorte que quis.
Teve o fim que escolheu.



quinta-feira, 15 de setembro de 2016

#213 - SONETO DE SEPARAÇÃO (Vinicius de Moraes)

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se triste o que se fez amante
E de sòzinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.



quarta-feira, 14 de setembro de 2016

#212 - NOME (Arnaldo Antunes)

algo é o nome do homem
coisa é o nome do homem
homem é o nome do cara
isso é o nome da coisa
cara é o nome do rosto
fome é o nome do moço
homem é o nome do troço
osso é o nome do fóssil
corpo é o nome do morto
homem é o nome do outro




terça-feira, 13 de setembro de 2016

#211 - CANÇÃO NOCTURNA (Reinaldo Ferreira [F.º])

Café de cais
onde se juntam
anónimos de iguais,
os ratos dos porões,
babel de todos os calões,
rio de fumo e de incontido cio,
sexuado rio,
que busca, único mar,
mulheres de pernoitar,
unge-te a nojo, não Anfitrite,
fina ficção marinha,
mas nauseabundo
e tutelar
o vulto familiar
da Virgem Vício,
Nossa Senhora do Baixo Mundo.





segunda-feira, 12 de setembro de 2016

#210 - RENÚNCIA (Manuel Bandeira)

Chora de manso e no íntimo... Procura
curtir em queixa o mal que te crucia:
o mundo é sem piedade e até riria
da tua inconsolável amargura.

Só a dor enobrece e é grande e é pura.
Aprende a amá-la que a amarás um dia.
Então ela será tua alegria
e será, ela só, tua ventura...

A vida é vã como a sombra que passa...
Sofre sereno e d'alma sobranceira,
sem um grito sequer, tua desgraça.

Encerra em ti tua tristeza inteira,
e pede humildemente a Deus que a faça
tua doce e constante companheira...




domingo, 11 de setembro de 2016

#209 - NO MEIO DO CAMINHO (Carlos Drummond de Andrade)

No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida das minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

#208 - PAPO DE ÍNDIO (Chacal)

Veio uns ômi di saia preta
cheiu di caixinha e pó branco
qui êles disserum qui chamava açucri
Aí eles falarum e nós fechamu a cara
depois êles arrepitirum e nós fechamu o corpo
Aí eles insistirum e nós comemu êles.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

#207 - COLONO (João Fonseca Amaral)

à memória de João Luís do Amaral

Quase perdida a memória das frias águas
escorrendo pelas encostas
bíblico fitavas esta chuva
estes ventos
estas árvores de grandes sombras.

Os caminhos da juventude entre Douro e Minho
a casa velha da quinta dos invernos
-- tudo palavras de um livro arrumado na estante
que (para o manter vivo)
de longe em longe passava pelos olhos.

Pão levedado de erros e grandezas
aos dentes da vida te deste inteiro
enquanto a cidade nascia sob os teus pés
crescia
e as raízes da rotina milímetro por milímetro
se iam afundando.

Partiste
sem te despedires
para a licençla ilimitada mais definitiva
mas entre Chamanculo e Xipamanine
o chão que pisaste
retém teu nome para sempre.

Maotas, 1953

terça-feira, 6 de setembro de 2016

#205 - INÊS DE LEIRIA (Afonso Lopes Vieira)

Encontrou Fernão Mendes
No interior da China
(E em que apuros ele ia!)
A velha portuguesa,
Chamada Inês de Leiria,
Que de repente reza:
Padre Nosso que estais nos céus...
Era de português o que sabia.

Ouvindo Fernão Mendes
Esta voz que soava
(Fernão cativo e cheio de tristeza!)
O português sorria...
Padre Nosso, que estais nos céus...
A velha mais não sabia,
Mas bastava.

Boa Inês de Leiria,
Cara patrícia minha,
Embora te fizesse
A aventura imortal
De Portugal
Chinesa muito mais que portuguesa,
-- Pois por esse sorriso de Fernão
Tocas-me o coração.

Deste-lhe em tal ensejo,
Entre as misérias da viagem,
O mais gostoso e saboroso beijo
-- O da Linguagem!