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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

#278 - ROMANCE (Afonso Lopes Vieira)

Por noite velha, truz truz,
Bateram à minha porta.
-- De onde vens, ó minha alma?
-- Venho morta, quase morta.
Já eu mal a conhecia,
De tão mudada que vinha;
Trazia todas quebradas
Suas asas de andorinha.
Mandei-lhe fazer a ceia,
Do melhor manjar que havia.
-- De onde vens, ó minha alma,
Que já mal te conhecia?
Mas a minha alma, calada,
Olhava e eu não respondia;
E nos seus formosos olhos
Quantas tristezas havia!
Mandei-lhe fazer a cama
Da melhor roupa que tinha
«Por cima damasco roxo
Por baixo cambraia fina».
-- Dorme, dorme ó minha alma,
Dorme e, para te embalar,
A boca me está cantando
Com vontade de chorar.




terça-feira, 6 de setembro de 2016

#205 - INÊS DE LEIRIA (Afonso Lopes Vieira)

Encontrou Fernão Mendes
No interior da China
(E em que apuros ele ia!)
A velha portuguesa,
Chamada Inês de Leiria,
Que de repente reza:
Padre Nosso que estais nos céus...
Era de português o que sabia.

Ouvindo Fernão Mendes
Esta voz que soava
(Fernão cativo e cheio de tristeza!)
O português sorria...
Padre Nosso, que estais nos céus...
A velha mais não sabia,
Mas bastava.

Boa Inês de Leiria,
Cara patrícia minha,
Embora te fizesse
A aventura imortal
De Portugal
Chinesa muito mais que portuguesa,
-- Pois por esse sorriso de Fernão
Tocas-me o coração.

Deste-lhe em tal ensejo,
Entre as misérias da viagem,
O mais gostoso e saboroso beijo
-- O da Linguagem!

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

#68 - ROSAS SEM ESPINHOS (Afonso Lopes Vieira)

Esta rosinha de Assis,
sem espinhos, que eu de lá trouxe,
murcha, luminosa e doce,
no seu leve aroma diz:
-- Uma vez tentado foi

o Santo pla carne inquieta;
eis que o desejo lhe dói
numa agonia secreta.


E com a sede dos beijos
e dos ardentes carinhos,
arroja o corpo em desejos
às rosas cheias de espinhos!


Mas nós, quando então o temos
no abraço deste rosal,
os espinhos recolhemos
para lhe não fazer mal.