O cego deu à manivela
Da velha e triste pianola,
Que era a alegria da vila;
Mas já ninguém vem à janela.
-- Pois, vindo, davam-lhe esmola...
E, ocultos, podem ouvi-la.
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quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
quarta-feira, 18 de janeiro de 2017
#264 - O INTERVALO (Carlos Queirós)
Sem palavras, sem gestos, sem um esforço,
Que a vida, francamente, nos mereça,
Quantas vezes pendemos a cabeça
E os braços, como ao peso dum remorso!
Interrogamos a memória -- e ela
Finge que nada sabe; a consciência,
Também nada nos diz. Feliz ausência!
-- Contudo, o tempo está de sentinela.
Como ovelhas perdidas na montanha,
Que não ouvissem do pastor a avena.
Cismamos em que nada vale a pena...
E esperamos que o novo dia venha.
Que a vida, francamente, nos mereça,
Quantas vezes pendemos a cabeça
E os braços, como ao peso dum remorso!
Interrogamos a memória -- e ela
Finge que nada sabe; a consciência,
Também nada nos diz. Feliz ausência!
-- Contudo, o tempo está de sentinela.
Como ovelhas perdidas na montanha,
Que não ouvissem do pastor a avena.
Cismamos em que nada vale a pena...
E esperamos que o novo dia venha.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2016
#250 - CLAMAVI AD TE (Carlos Queirós)
Apenas hoje! Apenas uma vez,
Fala de modo que a verdade seja
Tão clara e transparente, que eu a veja
Num cristal da mais pura limpidez!
Talvez seja loucura o que deseja
A minha insaciedade. Sim, talvez...
Que tu fosses, falando, a outra que és,
Com a alma nos lábios, quando beija.
Mal empregado privilégio, a fala,
Que traduz a verdade em que pensamos,
As palavras gastando em ocultá-la!
Que seja assim quando se odeia, vamos...
Mas para quê se dissimula ou cala,
Quando tudo nos diz que nos amamos?!
Fala de modo que a verdade seja
Tão clara e transparente, que eu a veja
Num cristal da mais pura limpidez!
Talvez seja loucura o que deseja
A minha insaciedade. Sim, talvez...
Que tu fosses, falando, a outra que és,
Com a alma nos lábios, quando beija.
Mal empregado privilégio, a fala,
Que traduz a verdade em que pensamos,
As palavras gastando em ocultá-la!
Que seja assim quando se odeia, vamos...
Mas para quê se dissimula ou cala,
Quando tudo nos diz que nos amamos?!
terça-feira, 25 de outubro de 2016
#237 - SONETO (Carlos Queirós)
De ti não quero mais do que a memória
Das breves horas idas que me deste,
Como a palma, depois duma vitória...
-- E nada mais dessa vitória reste.
De neblina um luar frio reveste
O meu passado: a infância foi-me inglória;
E dela não ficou mais do que a história
Dum menino, uma fada e um cipreste.
Não mais serei contigo neste vário
Campo, sonhando, em vaga liquescência...
Luz coada através dum aquário.
(Entanto, a serra tem a consciência
Do meu passar por ela solitário,
Como outrora, na minha adolescência).
Das breves horas idas que me deste,
Como a palma, depois duma vitória...
-- E nada mais dessa vitória reste.
De neblina um luar frio reveste
O meu passado: a infância foi-me inglória;
E dela não ficou mais do que a história
Dum menino, uma fada e um cipreste.
Não mais serei contigo neste vário
Campo, sonhando, em vaga liquescência...
Luz coada através dum aquário.
(Entanto, a serra tem a consciência
Do meu passar por ela solitário,
Como outrora, na minha adolescência).
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