terça-feira, 6 de dezembro de 2016

#249 - ARRÁBIDA (Júlio Evangelista)

O vento bate na face


De quem sobe àquela serra.


Vento que por ali erra


Bate na face a quem passe


Perto do cimo da serra.




Bate forte, o vento forte,


Chicoteando com força,


Ao vir das bandas do norte,


Chicoteando com força,


Dono da serra e da morte.




Consente, vento, que eu passe


Pelo alto desta serra


E não me batas na face


Porque, se mais não bastasse,


Basta eu ser da tua terra.




Não grites assim tão forte


Nem te exaltes contra mim,


Porque eu também sou do norte:


Donde tu vens, também vim,


Vento que ventas do norte.




Venho ver frei Agostinho;


Trazer ao Frade saudades


Das verdes terras do Minho:


Venho falar de saudades


Com o Poeta Agostinho.




Morreu o Sebastião


Que lhe falava, falava,


Das coisas do coração.


E o frade está desolado


Era quase como um irmão!...




Ele mora ali em cima


E a conversa não demora.


Venho falar-lhe do Lima,


Venho falar-lhe de Ponte,


E outras coisas que ele ignora.




Regresso depois ao Minho,


Vento que sopras do norte


E guardas Frei Agostinho.


Se um dia quiser recados,


Traze-los tu, vento norte?






Arrábida, 8/3/53




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