sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

#250 - CLAMAVI AD TE (Carlos Queirós)

Apenas hoje! Apenas uma vez,
Fala de modo que a verdade seja
Tão clara e transparente, que eu a veja
Num cristal da mais pura limpidez!

Talvez seja loucura o que deseja
A minha insaciedade. Sim, talvez...
Que tu fosses, falando, a outra que és,
Com a alma nos lábios, quando beija.

Mal empregado privilégio, a fala,
Que traduz a verdade em que pensamos,
As palavras gastando em ocultá-la!

Que seja assim quando se odeia, vamos...
Mas para quê se dissimula ou cala,
Quando tudo nos diz que nos amamos?!



terça-feira, 6 de dezembro de 2016

#249 - ARRÁBIDA (Júlio Evangelista)

O vento bate na face


De quem sobe àquela serra.


Vento que por ali erra


Bate na face a quem passe


Perto do cimo da serra.




Bate forte, o vento forte,


Chicoteando com força,


Ao vir das bandas do norte,


Chicoteando com força,


Dono da serra e da morte.




Consente, vento, que eu passe


Pelo alto desta serra


E não me batas na face


Porque, se mais não bastasse,


Basta eu ser da tua terra.




Não grites assim tão forte


Nem te exaltes contra mim,


Porque eu também sou do norte:


Donde tu vens, também vim,


Vento que ventas do norte.




Venho ver frei Agostinho;


Trazer ao Frade saudades


Das verdes terras do Minho:


Venho falar de saudades


Com o Poeta Agostinho.




Morreu o Sebastião


Que lhe falava, falava,


Das coisas do coração.


E o frade está desolado


Era quase como um irmão!...




Ele mora ali em cima


E a conversa não demora.


Venho falar-lhe do Lima,


Venho falar-lhe de Ponte,


E outras coisas que ele ignora.




Regresso depois ao Minho,


Vento que sopras do norte


E guardas Frei Agostinho.


Se um dia quiser recados,


Traze-los tu, vento norte?






Arrábida, 8/3/53




domingo, 4 de dezembro de 2016

#248 - CHAMARAM-ME CIGANO (José Afonso)

Chamaram-me um dia
Cigano e maltês
Menino, não és boa rês
Abri uma cova
Na terra mais funda
Fiz dela
A minha sepultura
Entrei numa gruta
Matei um tritão
Mas tive
O diabo na mão

Havia um comboio
Já pronto a largar
E vi
O diabo a tentar
Pedi-lhe um cruzado
Fiquei logo ali
Num leito
De penas dormi
Puseram-me a ferros
Soltaram-me o cão
Mas tive o diabo na mão

Voltei de charola
De cilha e arnez
Amigo, vem cá
Outra vez
Subi uma escada
Ganhei dinheirama
Senhor D. Fulano Marquês
Perdi na roleta
Ganhei no gamão
Mas tive
O diabo na mão

Ao dar uma volta
Caí do lancil
E veio
O diabo a ganir
Nadavam piranhas
Na lagoa escura
Tamanhas
Que tal nunca vi
Limpei a viseira
Peguei no arpão
Mas tive
O diabo na mão

















quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

#247 - AQUI (Carlos Ávila)

continuar aqui
apesar de

roendo pedra
comendo amor

(montanhas?
são tão estranhas

acima -- impassível
l'azur l'azur l'azur...

na única cidade
com abóbada celeste

abaixo -- impossível
vida sem saída

labirintos: look around
the lonely people)

continuar aqui
à beira de

comendo pedra
roendo amor


quarta-feira, 30 de novembro de 2016

#246 - A VARIEDADE DO MUNDO (António Barbosa Bacelar)

Este nasce, outro morre, acolá soa
Um ribeiro que corre, aqui suave,
Um rouxinol se queixa brando e grave,
Um leão c'o rugido o monte atroa.

Aqui corre uma fera, acolá voa
C'o grãozinho na boca ao ninho, ua ave,
Um derruba o edifício, outro ergue a trave,
Um caça, outro pesca, outro enferoa.

Um nas armas se alista, outro as pendura
Ao soberbo Ministro aquele adora,
Outro segue do Paço a sombra amada.

Este muda de amor, aquele atura.
Do bem, de que um se alegra, o outro chora...
Oh Mundo, oh sombra, oh zombaria, oh nada!


terça-feira, 29 de novembro de 2016

#245 - "não pude amar mais nada" (Fernando Assis Pacheco)

não pude amar mais nada
não pude amar mais ninguém
e mesmo que te minta
é o contrário disso

e mesmo que te minta
é a verdade seca
posta ali às avessas;
não pude amar mais claro



quinta-feira, 24 de novembro de 2016

#244 - COLEGIAL (José Régio)

Em cima da minha mesa,
Da minha mesa de estudo,
Mesa da minha tristeza
Em que, de noite e de dia,
Rasgo as folhas, leio tudo
Destes livros em que estudo,
E me estudo
(Eu já me estudo...)
E me estudo,
A mim,
Também,
Em cima da minha mesa,
Tenho o teu retrato, Mãe!

À cabeceira do leito,
Dentro dum lindo caixilho,
Tenho uma Nossa Senhora
Que venero a toda a hora...
Ai minha Nossa Senhora
Que se parece contigo,
E que tem, ao peito,
Um filho
(O que ainda é mais estranho)
Que se parece comigo,
Num retratinho,
Que tenho,
De menino pequenino...!

No fundo da minha mala,
Mesmo lá no fundo a um canto,
Não lhes vá tocar alguém,
(Quem as lesse, o que entendia?
Só riria
Do que nos comove a nós...)
Já tenho três maços, Mãe,
Das cartas que tu me escreves
Desde que saí de casa...
Três maços -- e nada leves! --
Atados com um retrós...

Se não fora eu ter-te assim,
A toda a hora,
Sempre à beirinha de mim,
(Sei agora
Que isto de a gente ser grande
Não é como se nos pinta...)
Mãe!, já teria morrido,
Ou já teria fugido,
Ou já teria bebido
Algum tinteiro de tinta!