sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

#279 - A DUQUESA DE BRABANTE (Gomes Leal)

Tem um leque de plumas gloriosas,
Na sua mão macia e cintilante,
De anéis de pedras finas preciosas
A Senhora Duquesa de Brabante.

Numa cadeira de espaldar doirado,
Escuta os galanteios dos barões.
-- É noite: e, sob o azul morno e calado,
Concebem, os jasmins e os corações.

Recorda o senhor Bispo acções passadas.
Falam damas de jóias e cetins.
Tratam barões de festas e caçadas
À moda goda: -- aos toques dos clarins,

Mas a Duquesa é triste. -- Oculta mágoa
Vela seu rosto de um solene véu.
-- Ao luar, sobre os tanques chora a água...
-- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...

Dizem as lendas que Satã, vestido
De uma armadura feita de um brilhante,
Ousou falar do seu amor florido
À Senhora Duquesa de Brabante.

Dizem que o ouviram ao luar nas águas,
Mais loiro do que o sol, marmóreo, e lindo,
Tirar de uma viola estranhas mágoas,
Pelas noites que os cravos vêm abrindo...

Dizem mais que na seda das varetas
Do seu leque ducal de mil matizes...
Satã cantara as suas tranças pretas,
-- E os seus olhos mais fundos que as raízes!

Mas a Duquesa é triste. -- Oculta mágoa
Vela no seu rosto de um solene véu.
-- Ao luar, sobre os tanques chora a água...
-- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...

O que é certo é que a pálida Senhora,
A transcendente Dama de Brabante,
Tem um filho horroroso... e de quem cora
O pai, no escuro, passeando errante.

É um filho horroroso e jamais visto! --
Raquítico, enfezado, excepcional,
Todo disforme, excêntrico, malquisto,
-- Pêlos de fera, e uivos de animal!

Parece irmão dos cerdos ou dos ursos,
Aborto e horror da brava Natureza...
-- Em vão tentam barões, com mil discursos,
Desenrugar a fronte da Duquesa.

Sempre a Duquesa é triste. -- Oculta mágoa
Vela seu rosto de um solene véu.
-- Ao luar, sobre os tanques chora a água...
-- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...

Ora o monstro morreu. -- Pelas arcadas
Do palácio retinem festas, hinos.
Riem nobres, vilões, pelas estradas.
O próprio pai se ri, ouvindo os sinos...

Riem-se os monges pelo claustro antigo.
Riem vilões trigueiros pelas charruas.
Riem-se os padres, junto ao seu jazigo.
Riem-se nobres e peões nas ruas.

Riem aias, barões, erguendo os braços.
Riem, nos pátios, os truões também.
Passeia o duque, rindo, nos terraços.
-- Só chora o monstro, em alto choro, a mãe!...

Só, sobre o esquife do disforme morto,
Chora, sem trégua, a mísera mulher.
Chama os nomes mais ternos ao aborto...
-- Mesmo assim feio, a triste mãe o quer!

Só ela chora pelo morto!... A mágoa
Lhe arranca gritos que a ninguém mais deu!
-- Ao luar, sobre os tanques chora a água...
-- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

#278 - ROMANCE (Afonso Lopes Vieira)

Por noite velha, truz truz,
Bateram à minha porta.
-- De onde vens, ó minha alma?
-- Venho morta, quase morta.
Já eu mal a conhecia,
De tão mudada que vinha;
Trazia todas quebradas
Suas asas de andorinha.
Mandei-lhe fazer a ceia,
Do melhor manjar que havia.
-- De onde vens, ó minha alma,
Que já mal te conhecia?
Mas a minha alma, calada,
Olhava e eu não respondia;
E nos seus formosos olhos
Quantas tristezas havia!
Mandei-lhe fazer a cama
Da melhor roupa que tinha
«Por cima damasco roxo
Por baixo cambraia fina».
-- Dorme, dorme ó minha alma,
Dorme e, para te embalar,
A boca me está cantando
Com vontade de chorar.




quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

#277 - VENDO A MORTE (Manuel Laranjeira)

Em todo o lado vejo a morte! E, assim, ao ver
Que a vida já vem morta cruelmente
Logo ao surgir, começo a compreender
Como a vida se vive inùtilmente...

Debalde (como um náufrago que sente,
Vendo a morte, mais fúria de viver)
Estendo os olhos mais àvidamente
E as mãos p'ra a vida... e ponho-me a morrer.

A morte! sempre a morte! em tudo a vejo,
Tudo ma lembra! E invade-me o desejo
De viver toda a vida que perdi...

E não me assusta a morte! Só me assusta
Ter tido tanta fé na vida injusta
...E não saber sequer p'ra que a vivi!



segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

#276 - DA CONDIÇÃO HUMANA (José Carlos Ary dos Santos)

Todos sofremos.
O mesmo ferro oculto
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta.
O mesmo sal nos queima os olhos vivos.
Em todos dorme
A humanidade que nos foi imposta.
Onde nos encontramos, divergimos.
É por sermos iguais que nos esquecemos
Que foi do mesmo sangue,
Que foi do mesmo ventre que surgimos.



domingo, 19 de fevereiro de 2017

#275 - VIDA E OBRA (Antônio Carlos de Brito)

você sabe o que Kant dizia?
que se tudo desse certo no meio também
daria no fim dependendo da idéia que se
fizesse de começo
e depois -- para ilustrar -- saiu dançando um
foxtrote



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

#274 - SONETO (José Carlos Ary dos Santos)

Fecham-se os dedos donde corre a esperança,
Toldam-se os olhos donde corre a vida.
Porquê esperar, porquê, se não se alcança
Mais do que a angústia que nos é devida?

Antes aproveitar a nossa herança
De intenções e palavras proibidas.
Antes rirmos do anjo, cuja lança
Nos expulsa da terra prometida.

Antes sofrer a raiva e o sarcasmo,
Antes o olhar que peca, a mão que rouba,
O gesto que estrangula, a voz que grita.

Antes viver do que morrer no pasmo
Do nada que nos surge e nos devora,
Do monstro que inventámos e nos fita.



terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

#273 - NOÉ (Pedro Tamen)

Pronto, pronto, eu faço. Dá um trabalhão
mas faço. Corto madeira, arranjo pregos,
gasto o martelo. E o pior também:
correr o mundo a recolher os bichos,
coisas de nada como formigas magras,
e os outros, os grandes, os que mordem
e rugem. E sei lá quanto são!
Em que assados me pões. Tu
gastaste seis dias, e eu nunca mais cabo.
Andar por esse mundo, a pé enxuto ainda,
a escolher os melhores, os de melhor saúde,
que o mundo que tu queres não há-de nascer torto.
Um por um, e por uma, é claro, é aos pares
-- o espaço que isso ocupa.

Mas não é ser carpinteiro,
não é ser caminheiro,
não é ser marinheiro o que mais me inquieta.
Nem é poder esquecer
a pulga, o ornitorrinco.
O que mais me inquieta, Senhor,
é não ter a certeza,
ou mais ter a certeza de não valer a pena,
é partir já vencido para outro mundo igual.