domingo, 25 de setembro de 2016

#219 - ESTA É DE LOOR DE SANTA MARIA, COM'É FREMOSA E BOA E À GRAN PODER. (Afonso X, O Sábio)

 Rosa das rosas e Fror das frores.
Dona das donas, Senor das senores.

Rosa de beldad' e de parecer
e Fror d'alegria e de prazer,
Dona en mui piadosa seer,
Sennor en toller coitas e doores.
   Rosa das rosas e Fror das frores...

Atal Sennor dev' ome muit' amar,
que de todo mal o pode guardar;
e pode-ll' os peccados perdõar,
que faz no mundo per maos sabores.
   Rosa das rosas e Fror das frores...

Devemo-la muit' amar e servir,
ca punna de nos guardar de falir;
des i dos erros nos faz repentir,
que nos fazemos come pecadores.
   Rosa das rosas e Fror das frores...

Esta donna que tenno por Sennor
e de que quero seer trobador,
se eu per ren poss' aver seu amor,
dou ao demo os outros amores.
   Rosa das rosas e Fror das frores...


quinta-feira, 22 de setembro de 2016

#218 - PARTIR!... (Manuel da Fonseca)

Eu vou-me embora para além do Tejo,
não posso mais ficar!

Já sei de cor os passos de cada dia,
na boca as mesmas palavras
batidas nos meus ouvidos...
-- Ai as desgraças humanas destas paisagens iguais!...
Abro os olhos e não vejo
já não ando, já não oiço...
Não posso mais...
Grita-me a Vida de longe
e eu vou-me embora para além do Tejo.

Passa a ave no céu bebendo azul e diz:    Vem!
O vento envolve-me numa carícia,
envolve-me e murmura: -- Vem!
As ondas estalam nas praias e vão mar fora,
as mãos de espuma a prender-me os sentidos
chamam no fundo dos meus olhos: -- Vem!

-- Camaradas, eu vou, esperai um pouco...
Ai, mas a vida nunca espera por ninguém...
E a noite chega vingadora;
o vento rasga-me o fato,
as ondas molham-me a carne
e a ave pia misticamente no ar;
abro os olhos e não vejo,
já não ando, já não oiço
-- e fico, desgraçado de ficar!...





quarta-feira, 21 de setembro de 2016

#217 - BOAS NOITES (João de Deus)

Estava uma lavadeira
A lavar numa ribeira
Quando chega um caçador:

-- Boas tardes, lavadeira!

-- Boas tardes, caçador!

-- Sumiu-se-me a perdigueira
Ali naquela ladeira;
Não me fazeis o favor
De me dizer se a brejeira
Passou aqui a ribeira?

-- Olhai que, dessa maneira,
Até um dia, senhor,
Perdereis a caladeira,
Que ainda é perda maior.

-- Que me importa, lavadeira!
Aqui na minha algibeira
Trago dobrado valor...
Assim eu fora senhor
De levar a vida inteira
Só a ver o meu amor
Lavar roupa na ribeira!

-- Talvez que fosse melhor...
Ver coser a costureira!
Vir de ladeira em ladeira
Apanhar esta canseira,
E tudo só por amor
De ver uma lavadeira
Lavar roupa na ribeira...
É escusado, senhor!

-- Boas noites,... lavadeira!

-- Boas noites, caçador!...




terça-feira, 20 de setembro de 2016

#216 - UMA CANTIGA (Armindo Rodrigues)

O que da razão não faz
uma firme barricada
de que é que será capaz
senão da dor de ser nada?
Pois vale a pena viver
a contrariar a vida?
Antes a vida perder
do que esta morte fingida.
Fique às nuvens e ao luar
a cobardia do céu.
Só quem sempre se afirmar
nunca de homem se perdeu.



segunda-feira, 19 de setembro de 2016

#215 - "o poeta que há em mim" (Chacal)

o poeta que há em mim
não é como o escrivão que há em ti
funcionário autárquico

     o profeta que há em mim
     não é como a cartomante que há em ti
     cigana fulana

o panfleto que há em mim
não é como o jornalista que há em ti
matéria paga

     o pateta que há em mim
     não é como o esteta que há em ti
     cana a la kant

o poeta que há em mim
é como o vôo no homem pressentido



sexta-feira, 16 de setembro de 2016

#214 - "A que morreu às portas de Madrid," (Reinaldo Ferreira [F.º])

A que morreu às portas de Madrid,
Com uma praga na boca
E a espingarda na mão,
Teve a sorte que quis,
Teve o fim que escolheu.
Nunca, passiva e aterrada, ela rezou.
E antes de flor, foi, como tantas, pomo.
Ninguém a virgindade lhe roubou
Depois dum saque -- antes a deu
A quem lha desejou,
Na lama dum reduto,
Sem náusea mas sem cio,
Sob a manta comum,
A pretexto do frio.
Não quis na retaguarda aligeirar,
Entre «champagne», aos generais senis,
As horas de lazer.
Não quis, activa e boa, tricotar
Agasalhos pueris,
No sossego dum lar.
Não sonhou minorar,
Num heroísmo branco,
De bicho de hospital,
A aflição dos aflitos.

Uma noite, às portas de Madrid,
Com uma praga na boca
E a espingarda na mão,
À hora tal, atacou e morreu.

Teve a sorte que quis.
Teve o fim que escolheu.



quinta-feira, 15 de setembro de 2016

#213 - SONETO DE SEPARAÇÃO (Vinicius de Moraes)

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se triste o que se fez amante
E de sòzinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.