Não
te ofereço
a rosa
mas
o nome
da rosa
que
serviria
meu amor
oferecer-te
a rosa
se dura
a rosa
pouco mais
que o tempo
em que te
digo rosa?
Não te
ofereço
a rosa
mas
o nome
meu amor
do amor
da rosa
eco
do que te digo
repetido
e mais rosa
te ofereço
se é
rosa
o que redigo
(rosa por cem vezes repetido)
do que
te dar
a rosa
que
não
dizendo
então
de amor
desdigo
quinta-feira, 23 de março de 2017
quarta-feira, 22 de março de 2017
#284 - CHAMA E FUMO (Manuel Bandeira)
Amor -- chama, e, depois, fumaça...
Medita no que vais fazer:
O fumo vem, a chama passa...
Gozo cruel, ventura escassa,
Dono do meu e do teu ser,
Amor -- chama, e, depois, fumaça...
Tanto ele queima! -- e, por desgraça,
Queimado o que melhor houver,
O fumo vem, a chama passa...
Paixão puríssima ou devassa,
Triste ou feliz, pena ou prazer,
Amor -- chama, e, depois, fumaça...
A cada par que a aurora enlaça,
Como é pungente o entardecer!
O fumo vem, a chama passa...
Antes, todo ele é gosto e graça.
Amor, fogueira linda a arder!
Amor -- chama, e, depois, fumaça...
Porquanto, mal se satisfaça,
(Como te poderei dizer?...)
O fumo vem, a chama passa...
A chama queima. O fumo embaça.
Tão triste que é! Mas, tem de ser...
Amor?... -- chama, e, depois, fumaça:
O fumo vem, a chama passa...
Teresópolis, 1911.
Medita no que vais fazer:
O fumo vem, a chama passa...
Gozo cruel, ventura escassa,
Dono do meu e do teu ser,
Amor -- chama, e, depois, fumaça...
Tanto ele queima! -- e, por desgraça,
Queimado o que melhor houver,
O fumo vem, a chama passa...
Paixão puríssima ou devassa,
Triste ou feliz, pena ou prazer,
Amor -- chama, e, depois, fumaça...
A cada par que a aurora enlaça,
Como é pungente o entardecer!
O fumo vem, a chama passa...
Antes, todo ele é gosto e graça.
Amor, fogueira linda a arder!
Amor -- chama, e, depois, fumaça...
Porquanto, mal se satisfaça,
(Como te poderei dizer?...)
O fumo vem, a chama passa...
A chama queima. O fumo embaça.
Tão triste que é! Mas, tem de ser...
Amor?... -- chama, e, depois, fumaça:
O fumo vem, a chama passa...
Teresópolis, 1911.
segunda-feira, 20 de março de 2017
#283 - 'PROMENADE' -- SOL NUM QUARTO VAZIO (EDWARD HOPPER) (Mário Avelar)
Às vezes sento-me na
sala a ouvir Coltrane,
my favorite things... O crepúsculo
da memória esbate-se
em ténues raios de
luz nos ecos desses dias:
Não vás ao mar, Tóin'... O tédio
dos sessenta, procissões,
indolentes romarias...
cheiro a fritos, farturas...
Nostalgia? Toca a
banda no coreto... Que
vontade de uivar, de
correr, de fugir p'ra longe
desse imenso torpor.
sala a ouvir Coltrane,
my favorite things... O crepúsculo
da memória esbate-se
em ténues raios de
luz nos ecos desses dias:
Não vás ao mar, Tóin'... O tédio
dos sessenta, procissões,
indolentes romarias...
cheiro a fritos, farturas...
Nostalgia? Toca a
banda no coreto... Que
vontade de uivar, de
correr, de fugir p'ra longe
desse imenso torpor.
quinta-feira, 9 de março de 2017
#282 - «He loved beauty that looked kind of destroyed»*
Gostava dessa espécie de beleza
que podemos surpreender a cada passo,
desvelada pelo acaso numa esquina
de arrabalde; a beleza de uma casa devoluta
que foi toda a infância de alguém,
com visitas ao domingo e tardes no quintal
depois da escola; a beleza crepuscular
de alguns rostos num retrato de família
a preto e branco, ou a de certos hotéis
que conheceram há muito os seus dias de fulgor
e foram perdendo estrelas; a beleza condenada
que nos toma de repente, como um verso
ou o desejo, como um copo que se parte
e dispersa no soalho a frágil luz de um instante.
Gostava de tudo isso que o deixava muito a sós
consigo mesmo, essa espécie de beleza arruinada
onde a vida encontra o espelho mais fiel.
*James Gavin, Deep in a Dream: The Long Night Of Chet Baker, Londres, Vintage, 2003, p. 312.
que podemos surpreender a cada passo,
desvelada pelo acaso numa esquina
de arrabalde; a beleza de uma casa devoluta
que foi toda a infância de alguém,
com visitas ao domingo e tardes no quintal
depois da escola; a beleza crepuscular
de alguns rostos num retrato de família
a preto e branco, ou a de certos hotéis
que conheceram há muito os seus dias de fulgor
e foram perdendo estrelas; a beleza condenada
que nos toma de repente, como um verso
ou o desejo, como um copo que se parte
e dispersa no soalho a frágil luz de um instante.
Gostava de tudo isso que o deixava muito a sós
consigo mesmo, essa espécie de beleza arruinada
onde a vida encontra o espelho mais fiel.
*James Gavin, Deep in a Dream: The Long Night Of Chet Baker, Londres, Vintage, 2003, p. 312.
quinta-feira, 2 de março de 2017
#281 - "À porta do meu Banco no patamar, acocorados," (José Emílio-Nelson)
À porta do meu Banco no patamar, acocorados,
um e uma, vendem a pele
de uns pratos encardidos
mesmo no traço que já lhes deu flores garridas.
Eles escorriam chuva, que chovia, para a louça.
Eles nem devem ter sangue pela tez lustrosa
da porcelana dos seus olhos de caveira.
quarta-feira, 1 de março de 2017
#280 - QUADRILHA (Carlos Drummond de Andrade)
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017
#279 - A DUQUESA DE BRABANTE (Gomes Leal)
Tem um leque de plumas gloriosas,
Na sua mão macia e cintilante,
De anéis de pedras finas preciosas
A Senhora Duquesa de Brabante.
Numa cadeira de espaldar doirado,
Escuta os galanteios dos barões.
-- É noite: e, sob o azul morno e calado,
Concebem, os jasmins e os corações.
Recorda o senhor Bispo acções passadas.
Falam damas de jóias e cetins.
Tratam barões de festas e caçadas
À moda goda: -- aos toques dos clarins,
Mas a Duquesa é triste. -- Oculta mágoa
Vela seu rosto de um solene véu.
-- Ao luar, sobre os tanques chora a água...
-- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...
Dizem as lendas que Satã, vestido
De uma armadura feita de um brilhante,
Ousou falar do seu amor florido
À Senhora Duquesa de Brabante.
Dizem que o ouviram ao luar nas águas,
Mais loiro do que o sol, marmóreo, e lindo,
Tirar de uma viola estranhas mágoas,
Pelas noites que os cravos vêm abrindo...
Dizem mais que na seda das varetas
Do seu leque ducal de mil matizes...
Satã cantara as suas tranças pretas,
-- E os seus olhos mais fundos que as raízes!
Mas a Duquesa é triste. -- Oculta mágoa
Vela no seu rosto de um solene véu.
-- Ao luar, sobre os tanques chora a água...
-- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...
O que é certo é que a pálida Senhora,
A transcendente Dama de Brabante,
Tem um filho horroroso... e de quem cora
O pai, no escuro, passeando errante.
É um filho horroroso e jamais visto! --
Raquítico, enfezado, excepcional,
Todo disforme, excêntrico, malquisto,
-- Pêlos de fera, e uivos de animal!
Parece irmão dos cerdos ou dos ursos,
Aborto e horror da brava Natureza...
-- Em vão tentam barões, com mil discursos,
Desenrugar a fronte da Duquesa.
Sempre a Duquesa é triste. -- Oculta mágoa
Vela seu rosto de um solene véu.
-- Ao luar, sobre os tanques chora a água...
-- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...
Ora o monstro morreu. -- Pelas arcadas
Do palácio retinem festas, hinos.
Riem nobres, vilões, pelas estradas.
O próprio pai se ri, ouvindo os sinos...
Riem-se os monges pelo claustro antigo.
Riem vilões trigueiros pelas charruas.
Riem-se os padres, junto ao seu jazigo.
Riem-se nobres e peões nas ruas.
Riem aias, barões, erguendo os braços.
Riem, nos pátios, os truões também.
Passeia o duque, rindo, nos terraços.
-- Só chora o monstro, em alto choro, a mãe!...
Só, sobre o esquife do disforme morto,
Chora, sem trégua, a mísera mulher.
Chama os nomes mais ternos ao aborto...
-- Mesmo assim feio, a triste mãe o quer!
Só ela chora pelo morto!... A mágoa
Lhe arranca gritos que a ninguém mais deu!
-- Ao luar, sobre os tanques chora a água...
-- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...
Na sua mão macia e cintilante,
De anéis de pedras finas preciosas
A Senhora Duquesa de Brabante.
Numa cadeira de espaldar doirado,
Escuta os galanteios dos barões.
-- É noite: e, sob o azul morno e calado,
Concebem, os jasmins e os corações.
Recorda o senhor Bispo acções passadas.
Falam damas de jóias e cetins.
Tratam barões de festas e caçadas
À moda goda: -- aos toques dos clarins,
Mas a Duquesa é triste. -- Oculta mágoa
Vela seu rosto de um solene véu.
-- Ao luar, sobre os tanques chora a água...
-- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...
Dizem as lendas que Satã, vestido
De uma armadura feita de um brilhante,
Ousou falar do seu amor florido
À Senhora Duquesa de Brabante.
Dizem que o ouviram ao luar nas águas,
Mais loiro do que o sol, marmóreo, e lindo,
Tirar de uma viola estranhas mágoas,
Pelas noites que os cravos vêm abrindo...
Dizem mais que na seda das varetas
Do seu leque ducal de mil matizes...
Satã cantara as suas tranças pretas,
-- E os seus olhos mais fundos que as raízes!
Mas a Duquesa é triste. -- Oculta mágoa
Vela no seu rosto de um solene véu.
-- Ao luar, sobre os tanques chora a água...
-- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...
O que é certo é que a pálida Senhora,
A transcendente Dama de Brabante,
Tem um filho horroroso... e de quem cora
O pai, no escuro, passeando errante.
É um filho horroroso e jamais visto! --
Raquítico, enfezado, excepcional,
Todo disforme, excêntrico, malquisto,
-- Pêlos de fera, e uivos de animal!
Parece irmão dos cerdos ou dos ursos,
Aborto e horror da brava Natureza...
-- Em vão tentam barões, com mil discursos,
Desenrugar a fronte da Duquesa.
Sempre a Duquesa é triste. -- Oculta mágoa
Vela seu rosto de um solene véu.
-- Ao luar, sobre os tanques chora a água...
-- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...
Ora o monstro morreu. -- Pelas arcadas
Do palácio retinem festas, hinos.
Riem nobres, vilões, pelas estradas.
O próprio pai se ri, ouvindo os sinos...
Riem-se os monges pelo claustro antigo.
Riem vilões trigueiros pelas charruas.
Riem-se os padres, junto ao seu jazigo.
Riem-se nobres e peões nas ruas.
Riem aias, barões, erguendo os braços.
Riem, nos pátios, os truões também.
Passeia o duque, rindo, nos terraços.
-- Só chora o monstro, em alto choro, a mãe!...
Só, sobre o esquife do disforme morto,
Chora, sem trégua, a mísera mulher.
Chama os nomes mais ternos ao aborto...
-- Mesmo assim feio, a triste mãe o quer!
Só ela chora pelo morto!... A mágoa
Lhe arranca gritos que a ninguém mais deu!
-- Ao luar, sobre os tanques chora a água...
-- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017
#278 - ROMANCE (Afonso Lopes Vieira)
Por noite velha, truz truz,
Bateram à minha porta.
-- De onde vens, ó minha alma?
-- Venho morta, quase morta.
Já eu mal a conhecia,
De tão mudada que vinha;
Trazia todas quebradas
Suas asas de andorinha.
Mandei-lhe fazer a ceia,
Do melhor manjar que havia.
-- De onde vens, ó minha alma,
Que já mal te conhecia?
Mas a minha alma, calada,
Olhava e eu não respondia;
E nos seus formosos olhos
Quantas tristezas havia!
Mandei-lhe fazer a cama
Da melhor roupa que tinha
«Por cima damasco roxo
Por baixo cambraia fina».
-- Dorme, dorme ó minha alma,
Dorme e, para te embalar,
A boca me está cantando
Com vontade de chorar.
Bateram à minha porta.
-- De onde vens, ó minha alma?
-- Venho morta, quase morta.
Já eu mal a conhecia,
De tão mudada que vinha;
Trazia todas quebradas
Suas asas de andorinha.
Mandei-lhe fazer a ceia,
Do melhor manjar que havia.
-- De onde vens, ó minha alma,
Que já mal te conhecia?
Mas a minha alma, calada,
Olhava e eu não respondia;
E nos seus formosos olhos
Quantas tristezas havia!
Mandei-lhe fazer a cama
Da melhor roupa que tinha
«Por cima damasco roxo
Por baixo cambraia fina».
-- Dorme, dorme ó minha alma,
Dorme e, para te embalar,
A boca me está cantando
Com vontade de chorar.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017
#277 - VENDO A MORTE (Manuel Laranjeira)
Em todo o lado vejo a morte! E, assim, ao ver
Que a vida já vem morta cruelmente
Logo ao surgir, começo a compreender
Como a vida se vive inùtilmente...
Debalde (como um náufrago que sente,
Vendo a morte, mais fúria de viver)
Estendo os olhos mais àvidamente
E as mãos p'ra a vida... e ponho-me a morrer.
A morte! sempre a morte! em tudo a vejo,
Tudo ma lembra! E invade-me o desejo
De viver toda a vida que perdi...
E não me assusta a morte! Só me assusta
Ter tido tanta fé na vida injusta
...E não saber sequer p'ra que a vivi!
Que a vida já vem morta cruelmente
Logo ao surgir, começo a compreender
Como a vida se vive inùtilmente...
Debalde (como um náufrago que sente,
Vendo a morte, mais fúria de viver)
Estendo os olhos mais àvidamente
E as mãos p'ra a vida... e ponho-me a morrer.
A morte! sempre a morte! em tudo a vejo,
Tudo ma lembra! E invade-me o desejo
De viver toda a vida que perdi...
E não me assusta a morte! Só me assusta
Ter tido tanta fé na vida injusta
...E não saber sequer p'ra que a vivi!
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017
#276 - DA CONDIÇÃO HUMANA (José Carlos Ary dos Santos)
Todos sofremos.
O mesmo ferro oculto
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta.
O mesmo sal nos queima os olhos vivos.
Em todos dorme
A humanidade que nos foi imposta.
Onde nos encontramos, divergimos.
É por sermos iguais que nos esquecemos
Que foi do mesmo sangue,
Que foi do mesmo ventre que surgimos.
O mesmo ferro oculto
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta.
O mesmo sal nos queima os olhos vivos.
Em todos dorme
A humanidade que nos foi imposta.
Onde nos encontramos, divergimos.
É por sermos iguais que nos esquecemos
Que foi do mesmo sangue,
Que foi do mesmo ventre que surgimos.
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