quinta-feira, 10 de março de 2016

#127 - CAFÉ (Ribeiro Couto)

Sabor de antigamente, sabor de família,
Café que foi torrado em casa,
Que foi feito no fogão da casa, com lenha do mato da casa,
Café para as visitas de cerimónia,
Café para as visitas de intimidade,
Café para os desconhecidos, para os que pedem pousada, para toda a gente


quarta-feira, 9 de março de 2016

#126 - É INÚTIL CHORAR (António Cardoso)

É inútil mesmo chorar
«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»
por todos os que tombam pela verdade
ou que julgam tombar.
O importante neles é já sentir a vontade
de lutar por ela.
Por isso é inútil chorar.

Ao menos se as lágrimas
dessem pão,
já não haveria fome.
Ao menos se o desespero vazio
das nossas vidas
desse campos de trigo...

Mas o que importa é não chorar.
«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»
Mesmo quando já não se sinta calor
é bom pensar que há fogueiras
e que a dor também ilumina.

Que cada um de nós
lance a lenha que tiver,
mas que não chore
embora tenha frio.
«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»

terça-feira, 8 de março de 2016

#125 - IRENE NO CÉU (Manuel Bandeira)

Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor

Imagino Irene entrando no céu:
-- Licença, meu branco!
E São Pedro Bonacheirão:
-- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

segunda-feira, 7 de março de 2016

#124 - ALGUÉM (Gonçalves Crespo)

Para alguém sou o lírio entre os abrolhos,
e tenho as formas ideais do Cristo,
para alguém sou a vida e a luz dos olhos,
e, se na terra existe, é porque existo.

Esse alguém, que prefere ao namorado
cantar das aves minha rude voz,
não és tu, anjo meu idolatrado!
Nem, meus amigos, é nenhum de vós!

Quando alta noite me reclino e deito
melancólico, triste e fatigado,
esse alguém abre as asas no meu leito,
e o meu sono desliza perfumado.

Chovam bençãos de Deus sobre a que chora
por mim além dos mares! esse alguém
é de meus dias a esplendente aurora,
és tu, doce velhinha, ó minha mãe!




domingo, 6 de março de 2016

#123 "Mha senhor fremosa, direi-vos ua rem:" (Nuno Eanes Cerzeo)

Mha senhor fremosa, direi-vos ua rem:
vós sodes mha sorte e meu mal e meu bem!
     E mais... porque vo-lo-ei eu já mais a dizer?...
     Mha sorte sodes, que me fazedes morrer!

Vós sodes mha mort' e eu mal, mha senhor,
e quant' eu no mund' ei de ben e de sabor!
     E mais... porque vo-lo-ei eu já mais a dizer?...
     Mha sorte sodes, que me fazedes morrer!

Mha mort' e mha coita sodes, non á i al,
e os vossos olhos mi fazen ben e mal!
     E mais... porque vo-lo-ei eu já mais a dizer?...
     Mha sorte sodes, que me fazedes morrer!

Senhor, ben me fazen soo de me catar,
pero ven-m 'en coita grand'; e vos direi ar:
     E mais... porque vo-lo-ei eu já mais a dizer?...
     Mha sorte sodes, que me fazedes morrer!



sábado, 5 de março de 2016

#122 - O ÚLTIMO ADEUS DUM COMBATENTE (Vasco Cabral)

Naquela tarde em que eu parti e tu ficaste
sentimos, fundo, os dois a mágoa da saudade.
Por ver-te as lágrimas sangrarem de verdade
sofri na alma um amargor quando choraste.

Ao despedir-me eu trouxe a dor que tu levaste!
Nem só o teu amor me traz a felicidade.
Quando parti foi por amar a Humanidade
Sim! foi por isso que parti e tu ficaste!

Mas se pensares que eu não parti e a mim te deste
será a dor e a tristeza de perder-me
unicamente um pesadelo que tiveste.

Mas se jamais do teu amor posso esquecer-me
e se fui eu aquele a quem tu mais quiseste
que eu conserve em ti a esperança de rever-me!


sexta-feira, 4 de março de 2016

#121 - FAROL ETERNO (Cândido Guerreiro)

Decorreram os anos. Pouco a pouco,
O vendaval, à solta, por vingança,
Quebra os vitrais e pela igreja avança,
E rompe em uivo prolongado e rouco...

E foge, e torna, e, com a chuva, louco,
Em desvairado sacrilégio, dança,
E abate claustros e ao abismo os lança,
E tudo alui, da abóbada ao cabouco...

Tudo caíu... Mas uma claridade,
Azul, fugaz, em noites muito escuras,
Ondula e sobe e, entre os escombros, erra...

-- Oh! a sobrevivência da piedade! --
São fogos fátuos, são as sepulturas
Ainda agora a alumiar, da terra...



quinta-feira, 3 de março de 2016

#120 - SONETO DA VISITAÇÃO (António Sardinha)

Vinde, adorai! Criados e parentes!
Tenho o presépio em nossa casa armado.
Vinde adorar o meu menino amado,
Honrá-lo com carinhos, com presentes!

Muito quietinho, nas roupinhas quentes,
O infante dorme, dorme aconchegado.
É lindo, pois não é? o meu morgado?
Que tu, Senhor, em graça mo aviventes!

E, de joelhos, com um ar de boda,
Adora e pasma-se a assistência toda,
Como diante dum festivo altar.

Que perfeição! Que enlevo de criança!
-- E pedem num louvor que não descansa
Que Deus nos dê saúde p'ra o criar.



quarta-feira, 2 de março de 2016

#119 - "e sequem-se-me os dedos a cabeça" (Fernando Assis Pacheco)

e sequem-se-me os dedos a cabeça
estoire e não fique de tudo uma palavra
se a maldição for tanta que eu te esqueça

e não reste sequer o chão e não de quantas ruas e
não já reste cidade

e seja a memória deste homem um escárnio ocultado por quinze
                                  [gerações de vindouros
com seus cães que se deitam aos pés das pessoas e parecem
                                   [adivinhar a linguagem monstruosa
das narinas resfolegando

se a maldição for tanta e tão pérfida
que eu te esqueça na morte, que eu te esqueça

terça-feira, 1 de março de 2016

#118 - "na hora de pôr a mesa, éramos cinco:" (José Luís Peixoto)

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.