quinta-feira, 9 de julho de 2020

#333 - OS LEÕES ESTÃO BRINCANDO NO JARDIM (Ademir Assunção)

Dentes gelados, unhas à mostra

o leão arranha levemente

a pele de puro gesso: estátua branca

Peônias farfalham mudas

ante a imaginação selvagem e furiosa

vento vento vento

na tarde de abismos, constelações

de leões, centauros prontos para o bote,

o amor perigoso, atado ao tudo

ou nada: um par de olhos diante

de sua máscara de oxigênio



quarta-feira, 8 de julho de 2020

#332 - INTRODUÇÃO AO CANTO (Eugénio de Andrade)

Ergue-te de mim,
pura chama do meu canto.
Luz terrestre, fragrância.
Ergue-te, jasmim!


Ergue-te, e aquece
a cal e a pedra,
as mãos e a alma.
Inunda, reina, e amanhece.


Ao menos tu sê ave,
primavera excessiva!
Ergue-te de mim:
canta, delira, arde!



segunda-feira, 6 de julho de 2020

#331 - CIFRA (Miguel Torga)

A imagem é o clarão
Emprestado à negrura.
Serve passivamente
A noite que ilumina.
Raio que não fulmina
A vida que atravessa,
A sua luz termina
Onde outra luz começa…


domingo, 5 de julho de 2020

#330 - ANACREÔNTICA (António Feijó)

Teu rosto é como
Um róseo pomo,
Que eu só desejo
Morder num beijo.

Último tomo
De amor que eu domo
Enquanto almejo
O grato ensejo...

O afecto que
Me enchera de
Paixão fatal

Vê com ardor
Teu belo cor-
po escultural!


quinta-feira, 2 de julho de 2020

#329 - CORAÇÃO HABITADO (Eugénio de Andrade)

Aqui estão as mãos.
São os mais belos sinais da terra.
Os anjos nascem aqui:
frescos, matinais, quase de orvalho,
de coração alegre e povoado.


Ponho nelas a minha boca,
respiro o sangue, o seu rumor branco,
aqueço-as por dentro, abandonadas
nas minhas, as pequenas mãos do mundo.


Alguns pensam que são as mãos de Deus
-- eu sei que são as mãos de um homem,
trémulas barcaças onde a água,
a tristeza e as quatro estações
penetram, indiferentemente.


Não lhe toquem: são amor e bondade.
Mais ainda: cheiram a madressilva!
São o primeiro homem, a primeira mulher.
E amanhece.



terça-feira, 30 de junho de 2020

#328 - "Gregor transformou-se em barata gigante." (António Franco Alexandre)

Gregor transformou-se em barata gigante.
Eu não: fiz-me aranhiço,
tão leve que uma leve brisa o faz
oscilar no seu fio de baba lisa.
Até que, contra a lei da natureza,
creio que tenho peso negativo,
e me elevo no ar se me não prendo
ao canto mais escuro desta ilha.
Quando descer à teia derradeira
não se verá no mundo alteração, ou só
talvez alguma mosca mais contente.
Em noites de luar, na alta esquina,
ficará a brilhar, mas sem ser vista,
a estrela que tracei como armadilha.



quinta-feira, 25 de junho de 2020

#327 - LETREIRO (Miguel Torga)

Porque não sei mentir,
Não vos engano:
Nasci subversivo.
A começar por mim -- meu principal motivo
De insatisfação --,
Diante de qualquer adoração,
Ajuízo.
Não sei me conformar.
E saio, antes de entrar,
De cada paraíso.



terça-feira, 23 de junho de 2020

#326 - SONETO (Camilo Pessanha)

Esvelta surge! Vem das águas, nua,
Timonando uma concha alvinitente!
Os rins flexíveis e o seio fremente...
Morre-me a boca por beijar a tua.

Sem vil pudor! Do que há que ter vergonha?
Eis-me formoso, moço e casto, forte.
Tão branco o peito! -- para o expor à Morte...
Mas que ora -- a infame! -- não se te anteponha.

A hidra torpe!... Que a estrangulo... Esmago-a
De encontro à rocha onde a cabeça te há-de,
Com os cabelos escorrendo água,

Ir inclinar-se, desmaiar de amor,
Sob o fervor da minha virgindade
E o meu pulso de jovem gladiador.



domingo, 21 de junho de 2020

#325 - DEUS (Ângelo de Lima)

Ó Deus...
               No Céu
                           do Sempre Além!...
No Improfundável!...
Teu modo é o Gesto que Elege o Bem...
-- Fatal... -- Eterno
                             ... sobre ao Mutável!...
Eras nos Tempos
                           Antes da Idade!...
Teu Gesto Imenso Gerou a Vida...
E, após teu Gesto...
                               -- Supremo, Imesto...
Depós..., -- é a Noute da Imensidade!...


sábado, 20 de junho de 2020

#324 - PRIMEIRAMENTE (Eugénio de Andrade)

Acordo sem o contorno do teu rosto na minha almofada, sem o teu peito liso e claro como um dia de vento, e começo a erguer a madrugada apenas com as duas mãos que me deixaste, hesitante nos gestos, porque os meus olhos partiram nos teus.

E é assim que a noite chega, e dentro dela te procuro, encostado ao teu nome, pelas ruas álgidas onde tu não passas, com a solidão aberta nos dedos como um cravo.

Meu amor, amor de uma breve madrugada de bandeiras, arranco a tua boca da minha e desfolho-a lentamente, até que outra boca -- e sempre a tua boca! -- comece de novo a nascer na minha boca.

Que posso eu fazer senão escutar o coração inseguro dos pássaros, encostar a minha face ao rosto lunar dos bêbados e perguntar o que aconteceu...