domingo, 20 de dezembro de 2020

#351 - "malditos" (João Rebocho)

 malditos

esses gajos

condenados

sozinhos nos aeroportos

a bagagem

num tapete

no outro lado do mundo

cada um para ali

mais culpado

à beira das lágrimas

a mobília em pedaços

malas derramando

na Austrália

e nós aqui

a vida entre os dedos

perco de novo


família que não veio existir

essa gente que era tua

quem te amasse,

atrasados sempre


avião que caiu

sem ter caído,

sangue pisado

desertas as chegadas




segunda-feira, 2 de novembro de 2020

#350 - AS CIGARRAS (Sophia de Mello Breyner Andresen)

Com o fogo do céu a calma cai

No muro branco as sombras são direitas

A luz persegue cada coisa até

Ao mais extremo limite do visível

Ouvem-se mais as cigarras do que o mar

domingo, 27 de setembro de 2020

#349 - MORS SANCTA (João Saraiva)

 Na humilde cela, onde em perfume casto

O luar esbate, merencório e brando,
Vai-lhe fugir o espírito, beijando
A negra cruz do seu rosário gasto...

Como num sonho tumular, nefasto,
Corvos que passam pela noite, em bando,
Trazem-lhe a morte lívida, cortando
O fundo azul silencioso e vasto...

Em prata líquida o luar escorre
Pelo fio das trémulas espadas
Que esgrime ao vento o canavial do rio...

E, quando, o brilho das estrelas morre,
O monge cerra as pálpebras molhadas,
Levando ao lábio o rosário frio...




quarta-feira, 23 de setembro de 2020

#348 - APÓSTROFO (Pedro Alvim)

Assim longos o dia fraccionavam pelas casas do Xadrez dois jogadores. Era pela tarde, quando o Sol oblíquo e fulvo se opõe já ao ponto primeiro do seu arco. Altas heras p'lo pátio desenhavam de sombra e luz cavalos diminutos -- e tão assim era, tão assim, tão, que logo as palavras saqueadas no salto morriam dos Cavalos. A caminho de Agosto abelhas raras doçura buscavam nos peões -- sílabas inseridas em minutos, outro era, porém, ali, o néctar; ora o Rei uma casa aventurando, ora o diagonal perfil dos Bispos, ora as Torres tomando posições, ora a branca Dama o véu do gesto de quem pela mão a deslocava ao longo do tabuleiro desdobrando... Assim tudo era -- e 'té a métrica no lapso das sombras e da luz um apóstrofo ao ritmo breve dava para que uma letra só não ferisse o medido gesto de quem longo ao longo das casas o finito no silêncio inseria do infinito. Ao longo do tabuleiro os jogadores assim pelas heras desenhados, como quem subtil desdobra rédeas e o instante sopesa do equilíbrio, apóstrofos colocavam nos Cavalos -- e a tarde, assim sustida, era e não era o galope disparado que habita o passo do dia demorado.

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

#347 - AUSÊNCIA (Manuel da Silva Gaio)

Desde que, por não te ver,
Vejo em tudo... noite escura,
Resta-me só a ventura
De duvidar em dizer:

-- Qual mais custa: se a tristeza
Dum adeus amargurado,
Se a dura e firme certeza
De estar penando a teu lado.


domingo, 30 de agosto de 2020

#346 - A NOSSA SENHORA (Nicolau Tolentino)

Se a febre atraiçoada enfim declina,
E se se esconde a aberta sepultura,
Ao vosso rogo o devo, ó Virgem pura,
Por quem me quis livrar a Mão Divina:

Sem Vós debalde a experta medicina
Traça e aparelha a desejada cura;
Sem Vós o índio adusto em vão procura
A amarga casca da saudável quina.

Quando em luta co'a morte me contemplo,
Sem haver já no mundo quem me valha,
Do vosso grão poder, (que grande exemplo!)

Vencestes; e, em memória da batalha,
Penduro nas paredes deste templo,
Rasgando, um novo Lázaro, a mortalha.



terça-feira, 25 de agosto de 2020

#345 - DIÁRIO (Ana Salomé)

A partir de agora, todo o poema que fale de amor, fora.
Todo o poema que não revolucione, fora.
Todo o poema que não ensine, fora.
Todo o poema que não salve vidas, fora.
Todo o poema que não se sobreviva, fora.
Vou deixar um anúncio no jornal:
Procura-se poeta. Trespasso-me.


segunda-feira, 24 de agosto de 2020

#344 - FUMO (António Fogaça)

Do meu quarto, que dá sobre uns quintais,
Descubro todo o bairro; e, muita vez,
Vejo, evolar-se o fumo em espirais
                    Das negras chaminés.

Quando vou à janela, ao Sol poente,
Horas em Junho de acender os lares,
Meus olhos vão seguindo longamente
                    O fumo pelos ares.

E penso ver formarem-se na vasta
Imensidade, esplêndidas imagens;
Até que o fumo pelo Azul se gasta
                    Nas mais altas viagens.

Todo este quadro é tão banal, que então
Chego a rir-me de mim, do que resumo
Na minha eterna e doce aspiração...
                    Que se assemelha ao fumo.




domingo, 23 de agosto de 2020

#343 - PRAÇA DA REPÚBLICA DOS MEUS SONHOS (Roberto Piva)

A estátua de Álvares de Azevedo é devorada com paciência pela paisagem
     de morfina
a praça leva pontes aplicadas no centro de seu corpo e crianças brincando
     na Tarde de esterco
Praça da República dos meus Sonhos
     onde tudo se fez febre e pombas crucificadas
     onde beatificados vêm agitar as massas
     onde García Lorca espera seu dentista
     onde conquistamos a imensa desolação dos dias mais doces
os meninos tiveram seus testículos espetados pela multidão
lábios coagulam sem estardalhaço
os mictórios tomam um lugar na luz
e os coqueiros se fixam onde o vento desarruma os cabelos

Delirum Tremens diante do Paraíso bundas glabras sexos de papel
     anjos deitados nos canteiros cobertos de cal água fumegante nas
     privadas cérebros sulcados de acenos
os veterinários passam lentos lendo Dom Casmurro
há jovens pederastas embebidos em lilás
e putas com a noite passeando em torno de suas unhas
há uma gota de chuva na cabeleira abandonada
enquanto o sangue faz naufragar as corolas
Oh minhas visões lembranças de Rimbaud praça da República dos meus
     Sonhos última sabedoria debruçada numa porta santa


quarta-feira, 12 de agosto de 2020

#342 - GRUPO ESCOLAR (Antonio Carlos de Brito / Cacaso)

Sonhei com um general de ombros largos que fedia
e que no sonho me apontava a poesia
enquanto um pássaro pensava suas penas
e já sem resistência resistia.
O general acordou e eu que sonhava
face a face deslizei à dura via
vi seus olhos que tremia, ombros largos,
vi seu queixo modelado a esquadria
vi que o tempo galopando evaporava
(deu pra ver qual a sua dinastia)
mas em tempo fixei no firmamento
esta imagem que rebenta em ponta fria:
poesia, esta química perversa,
este arco que desvela e me repõe
nestes tempos de alquimia.