Diversa em cor, igual em bizarria
Sois, bela trança, ao lustre de Sofala;
Luto por negra, por vistosa gala,
Nas cores, noite, na beleza, dia.
Negra, porém, de amor na monarquia
Reinais, senhora, não sereis vassala;
Sombra, mas toda a luz não vos iguala,
Tristeza, mas venceis toda a alegria.
Tudo sois, mas eu tenho resoluto
Que sois só na aparência enganadora,
Negra noite, tristeza, sombra, luto.
Porém, na essência, ó doce matadora,
Quem não dirá que sois, e não diz muito,
Dia, gala, alegria, luz, senhora?
terça-feira, 4 de outubro de 2016
segunda-feira, 3 de outubro de 2016
#224 - POEMA DE SETE FACES (Carlos Drummond de Andrade)
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, porque me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, porque me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
sexta-feira, 30 de setembro de 2016
#223 - "Os antigos eram jovens, e nós," (António Franco Alexandre)
Os antigos eram jovens, e nós,
disse Bacon num lúcido momento,
somos velhos, embrulhados em
constante movimento. Hoje podia
ter vinte anos, um corpo diferente
capaz de reflectir
o sol, que além das nuvens brilha;
saberia, com arte de palavras,
dizer, do céu, os nomes mais completos;
de barbas brancas visitando asilos
os nossos filhos nos dariam fama.
E ainda assim alguma
pequena coisa perderia: o céu, talvez,
na sua cor mais fria;
manhãs de temporal, quando distantes
relâmpagos azuis cobrem a terra;
o cheiro a chuva, o sabor de alguns frutos;
estória por contar, livros por ler;
a sábia opinião do chanceler;
e sobretudo, no teu rosto, o véu
do antigo amor chamado juventude.
disse Bacon num lúcido momento,
somos velhos, embrulhados em
constante movimento. Hoje podia
ter vinte anos, um corpo diferente
capaz de reflectir
o sol, que além das nuvens brilha;
saberia, com arte de palavras,
dizer, do céu, os nomes mais completos;
de barbas brancas visitando asilos
os nossos filhos nos dariam fama.
E ainda assim alguma
pequena coisa perderia: o céu, talvez,
na sua cor mais fria;
manhãs de temporal, quando distantes
relâmpagos azuis cobrem a terra;
o cheiro a chuva, o sabor de alguns frutos;
estória por contar, livros por ler;
a sábia opinião do chanceler;
e sobretudo, no teu rosto, o véu
do antigo amor chamado juventude.
quinta-feira, 29 de setembro de 2016
#222 - IMAGEM (Alberto de Lacerda)
No filme azul do desdobrado céu
decantarei a mínima magia
das sensações mais puras, melodia
da minha infância, onde era apenas Eu.
Da realidade nua desce um véu
que, já sem mar, apenas maresia,
me vem tecer aquela chuva fria
que prende esta janela ao claro céu.
Despido o ouropel desvalioso,
já não apenas servo, mas o Rei
da luz da minha lâmpada romeira,
assim procuro o centro misterioso
do mundo que hoje habito, onde serei
concêntrica expressão da vida inteira.
decantarei a mínima magia
das sensações mais puras, melodia
da minha infância, onde era apenas Eu.
Da realidade nua desce um véu
que, já sem mar, apenas maresia,
me vem tecer aquela chuva fria
que prende esta janela ao claro céu.
Despido o ouropel desvalioso,
já não apenas servo, mas o Rei
da luz da minha lâmpada romeira,
assim procuro o centro misterioso
do mundo que hoje habito, onde serei
concêntrica expressão da vida inteira.
terça-feira, 27 de setembro de 2016
#221 - "É pela tarde, quando a luz esmorece" (Reinaldo Ferreira [F.º])
É pela tarde, quando a luz esmorece
E as ruas lembram singulares colmeias,
Que a alegria dos outros me entristece
E aguço o faro para as dores alheias.
Um que, impaciente, para o lar regresse,
As viaturas que cruzam cheias
Dos que fazem da vida uma quermesse,
São para mim, faminto, odor de ceias.
Sentimento cruel de quem se afasta,
Por orgulho repele, e se desgasta
No esforço de fugir à multidão.
Mas castigo de quem, por imprudente,
Já não pode deter-se na vertente
Que vai da liberdade à solidão.
E as ruas lembram singulares colmeias,
Que a alegria dos outros me entristece
E aguço o faro para as dores alheias.
Um que, impaciente, para o lar regresse,
As viaturas que cruzam cheias
Dos que fazem da vida uma quermesse,
São para mim, faminto, odor de ceias.
Sentimento cruel de quem se afasta,
Por orgulho repele, e se desgasta
No esforço de fugir à multidão.
Mas castigo de quem, por imprudente,
Já não pode deter-se na vertente
Que vai da liberdade à solidão.
segunda-feira, 26 de setembro de 2016
#220 - A ESTRELA (Manuel Bandeira)
Vi uma estrela tão alta,
vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
na minha vida vazia.
Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sòzinha
luzindo no fim do dia.
Por que da sua distância
para a minha companhia
não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?
E ouvia-a na sombra funda
responder que assim fazia
para dar uma esperança
mais triste ao fim do meu dia.
vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
na minha vida vazia.
Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sòzinha
luzindo no fim do dia.
Por que da sua distância
para a minha companhia
não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?
E ouvia-a na sombra funda
responder que assim fazia
para dar uma esperança
mais triste ao fim do meu dia.
domingo, 25 de setembro de 2016
#219 - ESTA É DE LOOR DE SANTA MARIA, COM'É FREMOSA E BOA E À GRAN PODER. (Afonso X, O Sábio)
Rosa das rosas e Fror das frores.
Dona das donas, Senor das senores.
Rosa de beldad' e de parecer
e Fror d'alegria e de prazer,
Dona en mui piadosa seer,
Sennor en toller coitas e doores.
Rosa das rosas e Fror das frores...
Atal Sennor dev' ome muit' amar,
que de todo mal o pode guardar;
e pode-ll' os peccados perdõar,
que faz no mundo per maos sabores.
Rosa das rosas e Fror das frores...
Devemo-la muit' amar e servir,
ca punna de nos guardar de falir;
des i dos erros nos faz repentir,
que nos fazemos come pecadores.
Rosa das rosas e Fror das frores...
Esta donna que tenno por Sennor
e de que quero seer trobador,
se eu per ren poss' aver seu amor,
dou ao demo os outros amores.
Rosa das rosas e Fror das frores...
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