domingo, 4 de setembro de 2016

#204 - CAIXA DE AMÊNDOAS (João Saraiva)

Ireis, amêndoas, saber
Que incomparável ventura
Às vezes há em sofrer.

Na boca vermelha e pura
Onde vos ides perder,
Se vos atrai certa alvura,
Muito deveis padecer.

Desta espantosa tortura
Só vos podeis defender
Duma maneira segura,
Dando-lhe o gozo e a doçura
De vos sentir derreter.



sábado, 3 de setembro de 2016

#203 - STARS FELL ON ALABAMA (Frederico Barbosa)

Cannonball plantando o tema
bala de som
redondo e reto
brilho de balão.

Nós e o nosso drama
beijo em campo branco
coração martelo
e lá no centro
eu e você.

Cannonball colhendo tempo
som canhão de pesadelo
no rosto o sopro negro
«dos combates que vão dentro do peito».

Estrelas caindo aqui
ontem, a noite
plano imaginado
e lá no centro
Cannonball arde por dentro.



sexta-feira, 2 de setembro de 2016

#202 - SÃO JOÃO DA CRUZ, Murilo Mendes

Viver organizando o diamante
(Intuindo sua face) e o escondendo.
Tratá-lo com ternura castigada.
Nem mesmo no deserto suspendê-lo.
 
Mas
Viver consumido da sua graça.
Obedecer a esse fogo frio
Que se resolve em ponto rarefeito.
Viver: do seu silêncio se aprendendo.
Não temer sua perda em noite obscura.
E do próprio diamante já esquecido,
Morrer, do seu esqueleto esvaziado:
Para vir a ser tudo, é preciso ser nada.


quarta-feira, 31 de agosto de 2016

#201 - SARITA (António Cardoso)

Sarita mora no musseque,
sofre no musseque,
mas passeia garrida na baixa
toda vermelha e azul,
toda sorriso branco de marfim,
e os brancos ficam a olhar,
perdidos no seu olhar.
Sarita usa brincos amarelos de lata
penteado de deusa egípcia
andar de gazela no mato,
desce à cidade
e sorri para toda a gente.
Depois, às seis e meia,
Sarita vai viver pró musseque
com os brancos perdidos no seu olhar!




terça-feira, 30 de agosto de 2016

#200 - POEMA TIRADO DE UMA NOTÍCIA DE JORNAL (Manuel Bandeira)

João Gostoso era carregador de feira-livre e morava no morro de Babilônia
                                                                               [num barracão sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

#199 - "Juntei-me um dia à flor da mocidade" (Fernando Assis Pacheco)

Juntei-me um dia à flor da mocidade
partindo para Angola no Niassa
a defender eu já não sei se a raça
se as roças de café da cristandade

a minha geração tinha a idade
das grandes ilusões sempre fatais
que não chegam aos anos principais
por defeito da própria ingenuidade

a guerra era uma coisa mais a Norte
de onde ela voltaria havendo sorte
à mesma e ancestral tranquilidade

azar de uns quantos se pagaram porte
esses a que atirou a dura morte
diz-se que estão na terra da verdade


Lisboa
28-IV-94

#198 - MODA (Leila Míccolis)

Eu queria te ver,
coxas de fora,
(como de fora vejo teus pelos do peito
pela camisa de seda),
a andares na rua,
entre assobios e apalpadelas,
o olhar disperso
como quem nada percebe,
e mostrando ao sentares,
subindo-te a roupa,
a cueca combinando com a gravata.