terça-feira, 23 de agosto de 2016

#195 - AO LONGE OS BARCOS DE FLORES (Camilo Pessanha)

Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila,
-- Perdida voz que entre as mais se exila,
-- Festões de som dissimulando a hora

Na orgia, ao longe, que em clarões cintila
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila.

E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detém... Só modulada trila
A flauta flébil... Quem há-de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora...


segunda-feira, 22 de agosto de 2016

#194 - POÉTICA (Cassiano Ricardo)

1

Que é a Poesia?
                        uma ilha
                        cercada
             de palavras
                        por todos
                        os lados.


2

Que é o Poeta?
                       um homem
que trabalha o poema
com o suor do seu rosto.
                       Um homem
             que tem fome
             como qualquer outro
                       homem.



domingo, 21 de agosto de 2016

#193 - SINAL VERMELHO (Gastão Cruz)

No carro ao
lado alguém desconhecido
exibe o seu Record no tablier
Como eu partirá quando o apito
do incorruptível árbitro o expulsar
de vez



sexta-feira, 19 de agosto de 2016

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

#191 - VIDA VITORIOSA (João de Barros)

Foi uma vida vitoriosa, é certo,
A vida que vivi nesta jornada,
-- Não da vitória que se vê de perto,
E que se alcança, apenas desejada.

Não do triunfo que sorri, incerto,
E logo é fumo, e é pó, e é cinza, e é nada,
-- Mas doutra glória que ao meu peito aperto,
E só eu vejo, pura e recatada.

Porque em silêncio conquistei, lutando,
-- Quantas vezes perdido e miserando,
Quantas vezes vencendo a própria dor --

Esta alegria de passar na vida
Sendo uma força, que jamais duvida,
E uma voz clara, como a Voz do Amor!


quarta-feira, 17 de agosto de 2016

#190 - O NOVO HOMEM (Amélia Veiga)

Traz nos olhos punhais
e mensagens secretas...
E zagaias de sonho
nas mãos negras, desertas...

Olha para nós a direito
e tem um riso branco
que lhe dilata o peito...

Passa um frio entre os homens
de receio e de espanto...

1961


#189 - AUTO-RETRATO COM MUSA (Vasco Graça Moura)

3.

quem amo tem cabelos
castanhos e castanhos
os olhos, o nariz
direito, a boca doce.
em mais ninguém conheço

tal porte do pescoço
nem tão esguias mãos
com aro de safira,
nem tanta luz tão húmida
que sai do seu olhar,

nem riso tão contente,
contido e comovente,
nem tão discretos gestos,
nem corpo tão macio
quem amo tem feições

de uma beleza grave
e música na alma.
flutua nas volutas
de um madrigal antigo
em ondas de ternura.

é quando eu sinto a musa
pousando no meu ombro
sua cabeça. assim
me enredo horas a fio
e fico a magicar.