quando, de duas casas contíguas, uma é demolida
e ficam na parede da outra os restos inegáveis
da primeira, rectângulos alinhados da
pintura de cada divisão e onde às vezes
se nota ainda a marca de uma estante
e se fica a saber que «ali houve uma casa», elemento
preciso de uma hierarquia de coisas e pessoas
administradas sob o estuque da teologia, quando
as águas e as luas parecem ter escorrido
com alguma dureza no pano da parede
e uma espécie de púbis alastra na pintura, sombriamente,
como um fumo muito velho, um fumo da razão
tocada pelo vento, e cresce mato
na base
domingo, 10 de julho de 2016
quarta-feira, 29 de junho de 2016
#174 - BRUEGHEL (José Jorge Letria)
Representados estão os meses outonais,
os rituais da caça, as parábolas
e os exorcismos, as peregrinações
e os horrores da carne na tela luminosa
do pintor que se senta a ver
dançar os camponeses e conta de babel
o tecido alucinante de mil línguas
fundindo-se em espirais de som
Pelas veredas abertas na neve
se evadem os caçadores e suas sombras
furtivas e trémulas e o pintor
à maneira de quem recorda um provérbio flamengo
tira do cerimonial das cores uma moral
justa e eterna: a felicidade do homem
é um tríptico incompleto
com pássaros vorazes planando em volta
os rituais da caça, as parábolas
e os exorcismos, as peregrinações
e os horrores da carne na tela luminosa
do pintor que se senta a ver
dançar os camponeses e conta de babel
o tecido alucinante de mil línguas
fundindo-se em espirais de som
Pelas veredas abertas na neve
se evadem os caçadores e suas sombras
furtivas e trémulas e o pintor
à maneira de quem recorda um provérbio flamengo
tira do cerimonial das cores uma moral
justa e eterna: a felicidade do homem
é um tríptico incompleto
com pássaros vorazes planando em volta
terça-feira, 21 de junho de 2016
#173 - A SOLIDÃO E SUA PORTA (Carlos Pena Filho)
Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
e quando nada mais interessar
(nem o torpor do sono que se espalha).
Quando, pelo desuso da navalha
a barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sòzinho na batalha
e aquietar na sombra a despedida
do mundo que te foi contraditório,
lembra-te que afinal te resta a vida
com tudo que é solvente e provisório
e de que ainda tens uma saída:
entrar no acaso e amar o transitório.
a pena de viver e a dor de amar
e quando nada mais interessar
(nem o torpor do sono que se espalha).
Quando, pelo desuso da navalha
a barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sòzinho na batalha
e aquietar na sombra a despedida
do mundo que te foi contraditório,
lembra-te que afinal te resta a vida
com tudo que é solvente e provisório
e de que ainda tens uma saída:
entrar no acaso e amar o transitório.
sexta-feira, 10 de junho de 2016
#172 - DESGOSTOSA (António Fogaça)
O seu riso gentil que ainda me arrasta,
Como quem vai seguindo no deserto
Os raios dum clarão que julga perto,
Mas que a segui-lo toda a vida gasta;
Sua voz, seu olhar, sua alma casta,
Todo esse altivo e festival concerto
-- Brancas formas de luz que ao seio aperto
Sonhadamente, numa dor nefasta...
Esse porte de brilho e majestade,
E o seu modo de ser, doce e honesto,
Tudo a sombra da Mágoa, sem piedade,
Velou, tocando-a com seu ar funesto!
Nunca eu sonhasse, ó íntima saudade,
Seu riso, voz, olhar e alma e gesto!...
Como quem vai seguindo no deserto
Os raios dum clarão que julga perto,
Mas que a segui-lo toda a vida gasta;
Sua voz, seu olhar, sua alma casta,
Todo esse altivo e festival concerto
-- Brancas formas de luz que ao seio aperto
Sonhadamente, numa dor nefasta...
Esse porte de brilho e majestade,
E o seu modo de ser, doce e honesto,
Tudo a sombra da Mágoa, sem piedade,
Velou, tocando-a com seu ar funesto!
Nunca eu sonhasse, ó íntima saudade,
Seu riso, voz, olhar e alma e gesto!...
quarta-feira, 1 de junho de 2016
#171 - MOMENTO (Torquato da Luz)
Tudo esqueci e tudo perdoei,
não me resta qualquer ressentimento,
dono apenas do que sei
que me escapa como o vento.
Nenhuma coisa é mais do que o momento
em que a tive e a deixei.
não me resta qualquer ressentimento,
dono apenas do que sei
que me escapa como o vento.
Nenhuma coisa é mais do que o momento
em que a tive e a deixei.
quarta-feira, 25 de maio de 2016
#170 - ELEGIA (Carlos Nejar)
Liberdade,
sem ti nada mais sei.
Compreendi o mundo
em ti, sútil
compêndio.
Amei muito antes
de me amares,
entre surtos e sulcos.
Amei
e só a morte
de perder-te
me faz viver
multiplicando
auroras, meses.
E sou tão doido
que o risco inútil
percorri
de me perder, perdendo-te,
perdido em mim.
sem ti nada mais sei.
Compreendi o mundo
em ti, sútil
compêndio.
Amei muito antes
de me amares,
entre surtos e sulcos.
Amei
e só a morte
de perder-te
me faz viver
multiplicando
auroras, meses.
E sou tão doido
que o risco inútil
percorri
de me perder, perdendo-te,
perdido em mim.
quarta-feira, 18 de maio de 2016
#169 - TROVAS A UMA CATIVA (Luís de Camões)
Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que para meus olhos
Fosse mais formosa.
Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas,
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.
Uma graça viva,
Que neles lhe mora,
Para ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.
Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.
Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela enfim descansa
Toda a minha pena.
Esta é a minha cativa
Que me tem cativo,
E, pois nela vivo,
É força que viva.
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que para meus olhos
Fosse mais formosa.
Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas,
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.
Uma graça viva,
Que neles lhe mora,
Para ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.
Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.
Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela enfim descansa
Toda a minha pena.
Esta é a minha cativa
Que me tem cativo,
E, pois nela vivo,
É força que viva.
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