quarta-feira, 25 de maio de 2016

#170 - ELEGIA (Carlos Nejar)

Liberdade,
sem ti nada mais sei.

Compreendi o mundo
em ti, sútil
compêndio.

Amei muito antes 
de me amares,
entre surtos e sulcos.

Amei
e só a morte
de perder-te
me faz viver
multiplicando
auroras, meses.

E sou tão doido
que o risco inútil
percorri
de me perder, perdendo-te,
perdido em mim.


quarta-feira, 18 de maio de 2016

#169 - TROVAS A UMA CATIVA (Luís de Camões)

Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que para meus olhos
Fosse mais formosa.

Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas,
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.

Uma graça viva,
Que neles lhe mora,
Para ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.

Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela enfim descansa
Toda a minha pena.
Esta é a minha cativa
Que me tem cativo,
E, pois nela vivo,
É força que viva.

domingo, 8 de maio de 2016

#168 - J. B. DIAS, NO LEITO DO HOSPITAL (Antero Abreu)

Tudo aqui é branco
A cama e os lençóis
E o mosaico que brilha...
Tudo aqui é branco
As batas e os enfermeiros
O tecto que não olho
E a arrastadeira...
Escuro aqui só eu
Bola preta que rola
No travesseiro lavado.
Parece-me estar a ouvir os enfermeiros:
O doente do número treze,
O doente do vinte e quatro...
E o doente preto.
Tudo aqui é branco.
Tudo, menos eu.
De manhã a enfermeira
Tira-me a temperatura.
É velha ou nova, bonita ou feia?
É branca.
«Senhora enfermeira, dê-me a sua mão»
Ai o negro de Michael Gold.
Eu não peço a mão à enfermeira.
Aqui tudo é branco
Tudo aqui é branco
Menos esta bola preta
Em que os olhos se escondem.
«Formas alvas, formas brancas...»
Serão assim os versos?
Ah, que importa isso agora?
Julgo que vou morrer
Morrer assim sozinho
Sozinho no meio de tantas coisas brancas
Que giram, que giram à minha volta.
«Formas alvas, formas brancas»
«A sua mão, enfermeira»
Batas brancas, parede, tecto, tudo
Branco, branco, branco...
A morte será branca?

                                                                                                     Coimbra, 1950 (1951?)


terça-feira, 3 de maio de 2016

#167 - MAR PORTUGUÊS (Fernando Pessoa)

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram!
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar,
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu
Mas nele é que espelhou o céu.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

#166. SONETO (Carlos Pena Filho)

O quanto perco em luz conquisto em sombra.
E é de recusa ao sol que me sustento.
Às estrelas, prefiro o que se esconde
Nos crepúsculos graves dos conventos.

Humildemente envolvo-me na sombra
que veste, à noite, os cegos monumentos
isolados nas praças esquecidas
e vazios de luz e movimento.

Não sei se entendes: em teus olhos nasce
a noite côncava e profunda, enquanto
clara manhã revive em tua face.

Daí amar teus olhos mais que o corpo
com esse escuro e amargo desespero
com que haverei de amar depois de morto.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

# 165. NATUREZA-MORTA COM LOUVADEUS (Fiama Hasse Pais Brandão)

Foi o último hóspede a sentar-se
no topo da mesa já depois do martírio.
As asas magníficas haviam-lhe sido quebradas
por algum vento. Perdera o rumo
sobre a película cintilante de água
no riacho parado. Tal como poisou
junto de nós, com o belo corpo magro
arquejante, lembrava, ainda segundo o seu nome,
um santo mártir. Enquanto meditávamos,
a morte sobreveio, e a pequena criatura,
que viera partilhar a nossa mesa,
depois de ter sido banida das águas
foi banida da terra. Alguém pegou
no volúvel alado corpo morto
abandonado sem nexo na brancura da toalha
-- que maculava --
e o atirou para qualquer arbusto raro
que o poeta ainda pôde fotografar.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

#164 - FOLHA SOLTA (Vicente de Carvalho)

Não me culpeis a mim de amar-vos tanto,
mas a vós mesma e à vossa formosura,
pois se vos aborrece, me tortura
ver-me cativo assim do vosso encanto.

Enfadais-vos; parece-vos que, enquanto
meu amor se lastima, vos censura;
mas sendo vós comigo áspera e dura,
que eu por mim brade aos céus não causa espanto.

Se me quereis diverso do que agora
eu sou, mudai; mudai vós mesma, pois
ido o rigor que em vosso peito mora,

a mudança será para nós dois:
e então, podereis ver, minha senhora,
que eu sou quem sou por serdes vós quem sois.