terça-feira, 19 de abril de 2016

#156 - A FOLHA DE SALGUEIRO (António Feijó)

Adoro essa mulher moça e formosa,
Que à janela, a sonhar, vejo esquecida,
Não por ter uma casa sumptuosa
Junto ao Rio Amarelo construída...
-- Amo-a porque uma folha melindrosa
Deixou cair nas águas, distraída.

Também adoro a brisa do Levante,
Não por trazer a essência virginal
Do pessegueiro que floriu distante,
No pendor da Montanha Oriental...
Amo-a porque impeliu a folha errante
Ao meu batel, no lago de cristal.

E adoro a folha, não por ter lembrado
A nova primavera que rompeu,
Mas por causa do nome idolatrado
Que essa jovem mulher nela escreveu
Com a doirada agulha do bordado...
          E esse nome... era o meu!

segunda-feira, 18 de abril de 2016

#155 - SANTO ANTÓNIO DOS CAVALEIROS (José do Carmo Francisco)

Um pequeno cais sem pedra nem saudade
Acaba num jardim de barcos a fingir
Num horizonte de fumo e de castanhas
Entre anúncios, collants e supermercados

(Não vinha ninguém nesta camioneta)
Minutos pesados se passaram entretanto
O néon dos anúncios do prédio em frente
Acorda-nos dum sonho já pouco perfeito

Outras camionetas vão encher o largo
Alguns indianos, chineses sem palavras
Misturam-se com moçambicanos perdidos
No metro que os engole tão pontualmente

E passam por nós casais quase exemplares
Cada um com um filho que dorme ao colo
E cada filho com o sono mais pesado
(Sem outra mão para os sacos de plástico)

Jornais velhos com notícias já perdidas
Chegam devagar aos pés de quem espera
O frio e o vento não perdoam no cais
E (sabemos) não é ainda esta a camioneta



domingo, 17 de abril de 2016

#154 - JORGE (Camilo Castelo Branco)

Constantemente vejo o filho amado
Na minha escuridão, onde fulgura
A extática pupila da loucura,
Sinistra luz dum cérebro queimado.

Nas rugas de seu rosto macerado
Transpira a cruciantíssima tortura
Que escurentou na pobre alma tão pura
Talento, aspirações... tudo apagado!

Meu triste filho, passas vagabundo
Por sobre um grande mar calmo, profundo,
Sem bússola, sem norte e sem farol!

Nem gosto nem paixão te altera a vida!
Eu choro sem remédio a luz perdida...
Bem mais feliz és tu, que vês o sol.



sábado, 16 de abril de 2016

#153 - CALÇADA DOS MESTRES (Manuel de Freitas)

Três velhas e eu,
na última taberna de Campolide.
Falavam de ir "levantar" os maridos,
o que deles resta.
Mas não estão "capazes":
dois anos debaixo da terra
nem sempre é o bastante.
"O meu João era mais forte do que
o teu" -- trabalho de vermes,
apenas. Também "por esta altura
morreu o Joaquim Sapateiro",
recordam. Como se já só
da morte vivessem
(o que não foge demasiado
à verdade geral:
alimentos em preparação -- ou cinzas).

Há quem tenha estado
dez anos debaixo da terra,
antes de poder ser "levantado"
-- e há quem nunca tenha estado vivo,
acrescenta o autor destes versos,
condensando a tarde numa garrafa vazia.

Estão a perceber agora
por que é que eu gosto tanto
de tabernas?
(Não respondam; o poema termina aqui,
porque a Dona Joana tem de ir ao oculista.)



sexta-feira, 15 de abril de 2016

#152 - SERRANILHA (Gil Vicente)

A serra é alta, fria e nevosa;
vi venir serrana, gentil, graciosa.
Vi venir serrana gentil graciosa
cheguei-me per'ela con gran cortezia.
Cheguei-me per'ela com gran cortezia,
disse-lhe: «Senhora, quereis companhia?»
Disse-me: «Escudeiro segui vossa via.»

quinta-feira, 14 de abril de 2016

#151 - VIESSES TU, POESIA... (Sebastião da Gama)

Viesses tu, Poesia,
e o mais estava certo.
Viesses no deserto,
viesses na tristeza,
viesses com a Morte...

Que alegria mereço, ou que pomar,
se os não justificar,
Poesia,
a tua vara mágica?

Bem sei: antes de ti foi a Mulher,
foi a Flor, foi o Fruto, foi a Água...
Mas tu é que disseste e os apontaste:
-- Eis a Mulher, a Água, a Flor, o Fruto.
E logo foram graça, aparição, presença,
sinal...

(Sem ti, sem ti que fora
das rosas?)
Mortas, mortas pra sempre na primeira,
morta à primeira hora.)

          Ó Poesia!, viesses
          na hora desolada
          e regressara tudo
          à graça do princípio...

quarta-feira, 13 de abril de 2016

#150 - CERNE (Olga Savary)

Nada a ver com a fonte
mas com a sede

Nada a ver com o repasto
mas com a fome

Nada a ver com o plantio
mas com a semente