domingo, 12 de fevereiro de 2017

#272 - "Eu sabia por ela as estações" (Helder Macedo)

Eu sabia por ela as estações
os esquilos os corvos as gaivotas.
Chegada a primavera abria os nós
em flores precipitadas e carnudas
de longas redondezas tacteantes
que batiam no vidro da janela.
Não dava fruto a minha castanheira
e na verdade não era sequer minha
ou só seria porque nos olhámos
cada manhã por mais de trinta anos.
Mas dava flores e esquilos e gaivotas
verão outono corvos primavera
sem contabilidades biológicas
doutras fertilidades transmissíveis.
Dava flores como se desse versos
sem precisar por isso de escrevê-los
como os amantes se amam num só corpo
sem ver onde um começa e o outro acaba
aberta toda em lábios vaginais
com uterinos longos falos brancos.
Também este ano floriu no tempo certo.
Mas o inverno chegou em plenas maias.
Disseram que a raiz rachou ao meio
que o centro do seu tronco estava oco
não percebiam como tinha flores.
Cortaram membro a membro a minha árvore
ficou só a raiz e o seu vazio
e sobre o campo em volta a neve quente
das suas flores perplexas
impossíveis.


domingo, 5 de fevereiro de 2017

#271 - CANTO INTERIOR DE UMA NOITE FANTÁSTICA (António Jacinto)

Sereno, mas resoluto
aqui estou -- eu mesmo! -- gritando desvairado
que há um fim por que luto
e me impede de passar ao outro lado.

Ante esta passagem de nível
nada de fáceis transposições
Do lado de cá -- pareça embora incrível
é que me meço: princípio e fim das multidões.

Não quero tudo quanto me prometem aliciantes
Nada quero, se para mim nada peço,
o meu desejar é outro -- o meu desejo é antes
o desejo dos muitos com que me pareço.

Quem quiser que venha comigo
nesta jornada terrena, humana e sincera
E se for só -- ainda assim prossigo
num mar de tumulto, impelindo os remos sem galera.

Que venham glaucas ondas em voragem
que ardam fogos infernais
que até os vermes tenham a coragem
de me cuspir no rosto e no mais.

Que os lobos uivem famintos
que os ventos redemoinhem furiosos
que até os répteis soltem seus instintos
e me envolvam traiçoeiros e viscosos.

Que me derrubem e arremessem ao chão
que espesinhem meu corpo já cansado
à tortura e ao chicote ainda responderei não
e a cada queda -- de novo serei alevantado.
E não transporei a linha divisória
entre o meu e o outro caminho
Mesmo que a minha luta não tenha glória
é no campo de combate que alinho.

Assim continuarei a lutar, ai a lutar!
num perigoso mar de paixões e de escolhos
e -- companheiros -- se neste sofrer me virdes chorar
não acrediteis em vossos olhos!

Luanda, 31-7-1952



sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

#270 - CANÇÃO VERDE (Pedro Homem de Melo)

A minha canção é verde
Sempre de verde a cantei!
De verde cantei ao povo
E fui de verde vestido
Cantar à mesa do Rei!

Porque foi verde o meu canto?
Porque foi verde?
                               -- Não sei...

Verde, verde, verde, verde,
Verde, verde, em vão cantei!
-- Lindo moço! disse o Povo.
-- Verde moço! disse El-rei.

Porque me chamaram verde?
Porque foi? Porquê?
                               -- Não sei...

Tive um amor -- Triste sina!
Amar é perder alguém...
Desde então ficou mais verde
Tudo em mim: a voz, o olhar,
Cada passo, cada beijo...
E o meu coração também!

Coração! porque és tão verde?
Porque és verde assim também?

Deu-me a vida, além do luto,
Amor à margem da lei...
Amigos são inimigos!
-- Paga-me!, gritaram todos.
Só eu de verde fiquei.

Porque fiquei eu de verde?
Porque foi isto?
                              -- Não sei...

A minha canção é verde
-- Canção à margem da lei...
Verde, ingénua, verde e moça,
Como a voz desta canção
Que, por meu mal vos cantei...

A minha canção é verde,
Verde, verde, verde, verde...
Mas... porque é verde?
                                -- Não sei...



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

#269 - UMA VIDA DE CÃO (Alexandre O'Neill)

Não
não é a poesia caixa de música
ou a poesia piolho místico enterrado no sebo destes dias
ou qualquer outra
que podem dissolver a tua alma
tão problemática
no vinho da beatitude

Ah
o «mistério» da poesia a poesia
técnica da confusão
a capelista poética e os primeiros fregueses
ainda a medo ainda receosos
de te pedirem a Dor em alfinetes que não tenhas
logo ali à mão

E quando dizes «Poesia» eu tenho nojo
aquele nojo violento que me dá
o olhar furtivo a atenção desatenta
dos que se demoram nos lavabos nas salas dos cinemas
de mãos distraídas procurando
a solução da noite

Instalaram-se em ti
a mesma contracção suspeita
a mesma hipocrisia o mesmo sobressalto
a mesma curva obscena
que o olhar descreve
goza
e disfarça

Quando dizes «Poesia» dizes medo
dizes família tradição classe
e a vida de cão que te esperava
e que é hoje a tua vida a tua «transcendente»
vida de cão

                         *

Ensinaram-te palavras que pareciam
prontas a derrotar quem as ouvisse
ensinaram-te gestos para elas
e a tal ponto te humilharam
que te puseram de pé
limpo
inteligente
e aprumado

Pronto a seguir
seguiste
e agora estás aqui pois claro
angustiado e iludido
mas deliciado

                         *

Atá aos útlimos arcanos
cafés e leitarias
seguiste André Breton
ou a sombra dele
e a aventura mental que procurava
um sinal exterior
um estilhaço vivo do acaso
a Nadja lisboeta que salvasse
ou a noite ou a vida
acabou em «bons» poemas «maus» poemas
em palavras e palavras

E coberto de palavras enterrado
numa terra de murmúrios de gemidos
teu coração já nada faz mover
senão moinhos de palavras
e «a dor é grande» dizes tu
«mas sublime»

*

Mas não sou eu que te lamento
Os teus mitos esperam-te
já impacientes

Agora põe-te a andar
agora passa por cá daqui a uns anos

Talvez me encontres
talvez possa fazer qualquer coisa por ti
qualquer coisa simples
quase inútil
quase ridícula
          oferecer-te uma sílaba
          um conselho
          um cigarro




terça-feira, 31 de janeiro de 2017

#268 - HUMILHAÇÕES (Cesário Verde)

De todo o coração -- a Silva Pinto
 
Esta aborrece quem é pobre. Eu, quase Job,
Aceito os seus desdéns, seus ódios idolatro-os;
E espero-a nos salões dos principais teatros,
     Todas as noites, ignorado e só.
 
Lá cansa-me o ranger da seda, a orquestra, o gás;
As damas, ao chegar, gemem nos espartilhos.
E enquanto vão passando as cortesãs e os brilhos,
     Eu analiso as peças no cartaz.
 
Na representação dum drama de Feuillet,
Eu aguardava, junto à porta, na penumbra,
Quando a mulher nervosa e vã que me deslumbra
     Saltou soberba o estribo do coupé.
 
Como ela marcha! Lembra um magnetizador.
Roçavam no veludo as guarnições das rendas;
E, muito embora tu, burguês, me não entendas,
     Fiquei batendo os dentes de terror.
 
Sim! Porque não podia abandoná-la em paz!
Ó minha pobre bolsa, amortalhou-se a ideia
De vê-la aproximar, sentado na plateia,
     De tê-la num binóculo mordaz!
 
Eu ocultava o fraque usado nos botões;
Cada contratador dizia em voz rouquenha:
-- Quem compra algum bilhete ou vende alguma senha?
        E ouviam-se cá fora as ovações.
 
Que desvanecimento! A pérola do Tom!
As outras ao pé dela imitam de bonecas;
Têm menos melodia as harpas e as rabecas,
        Nos grandes espectáculos do Som.
 
Ao mesmo tempo, eu não deixava de a abranger;
Via-a subir, direita, a larga escadaria
E entrar no camarote. Antes estimaria
        Que o chão se abrisse para me abater.
 
Saí; mas ao sair senti-me atropelar.
Era um municipal sobre um cavalo. A guarda
Espanca o povo. Irei-me; e eu, que detesto a farda,
        Cresci com raiva contra o militar.
 
De súbito, fanhosa, infecta, rota, má,
Pôs-se na minha frente uma velhinha suja,
E disse-me, piscando os olhos de coruja:
-- Meu bom senhor! Dá-me um cigarro? Dá?...


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

#267 - IN MEMORIAM (José Carlos Ary dos Santos)

Requiem aeternum dona eis,
                                                                                                                                                                           Domine, et lux perpetua
                                                                                                                                                                                          luceat eis.»

Que a terra lhe seja pesada.
Que lhe apodreça o corpo e os olhos fiquem vivos,
Se lhe soltem os dentes e a fome fique intacta
E a alma, se a tiver, que lha fustigue o vento
E arrase com ela a memória gravada
Na lembrança demente dos que o choram.

Que a mulher que foi dele oiça o vento na noite,
Cheio de ossos e uivos
E garfos aguçados
E que reparta o medo com o primeiro intruso
E o vento se insinue pelas portas fechadas
E rasteje no quarto
E suba pela cama
E lhe entre no olhar como estiletes de aço
Lhe penetre os ouvidos como agulhas de som,
Lhe emaranhe os cabelos como um nó de soluços,
Lhe desfigure o rosto como um ácido em chama.

Que a mulher que foi dele oiça o vento na noite,
Que a mulher que foi dele oiça o vento na cama!

Que o nome que era o seu o persigam os ecos,
O gritem no deserto as gargantas com sede,
O murmurem no escuro os mendigos com frio,
O clamem na cidade as crianças com fome,
O soluce o amante de súbito impotente,
O maldigam no exílio as almas sem descanso

Que o nome que era o seu seja a bandeira negra,
A pálpebra doente,
O vómito de sangue..

Que o gesto que era o seu o imitem as mães
Que se torcem de dor quando abortam nas trevas,
O desenhem a lume os braços amputados,
O perpetue o esgar dos jovens mutilados,
O dance o condenado que morre na fogueira.

Que o gesto que era o seu seja o punhal do louco
A arma do ladrão
A marca do vencido.

Que o sangue que era o seu seja o rictus da tara,
A máscara de sal,
A vingança do pobre.
E que o Exterminador, no seu trono de enxofre,
O faça tilintar os guizos da tortura
Até que o mundo o esqueça
E mais ninguém o chore.


domingo, 29 de janeiro de 2017

#266 - VERSOS DA BELA ADORMECIDA (José Régio)

Lá longe, muito longe, ai, muito longe!, ao fundo
              De areias e gelos do cabo do mundo,
Depois de ralos, aflições, suores, dragões, ciladas, perigos,
              E bosques tenebrosos, antigos, antigos.

Sonhei que ela me espera, adormecida
             Desde o começo da vida,
Nua, deitada sobre as tranças de oiro,
             Guardada para mim como um tesoiro.

             Sonhei que um nimbo argênteo a veste,
Raiando o céu de norte a sul, de leste a oeste,
             E que sobre ela paira o silêncio profundo
             Dos gelos e areias do cabo do mundo...

No seu lábio, um sorriso ainda transido
Ficou, como na boca das estátuas, esculpido,
               Esperando, talvez, para raiar,
               Que ela suba as pestanas, devagar...

Vi uma vez, em sonhos vi, que aquelas pálpebras se erguiam,
Sim, devagar..., sim, devagar..., e que os seus lábios me diziam,
             Estendidos para mim:
             -- «Chegaste?, chegaste enfim?!»

             E eu soluçava: -- «Sim, sou eu...!
«Mas tu..., és tu, bem tu, Porta do Céu?!
«És tu, ou não és mais que mais uma miragem
«Das tantas que encontrei pela viagem? 

«Ai, que de vezes já supus que te possuía
«Em uma imagem que afinal era vazia, era vazia!
«E que longe, afinal, te não venho encontrar,
«Que passei ermos, passei montes, passei pegos, passei mar...»

Foi isto em sonhos. Acordado, eu perguntava: -- «Que farei?
               «Aonde... a que longe irei,
«Para que vos atinja, ó silêncios sem fundo
               «De areias e gelos do cabo do mundo?

«Anjos, demónios, serafins de asas de lanças e cabelos
               «De chamas e serpentes aos novelos,
               «Génios que em sonhos me guiais!:
               «Já me não bastam sonhos! Quero mais.

               «Quero, através seja de que desertos,
                «Chegar a ver, com olhos bem despertos,
                «O resplendor que sei que a veste,
                «Raiando o céu de norte a sul, de leste a oeste...»

Assim falei. Ninguém, porém, me mostrou ter ouvido.
               Meu grito, além, se extinguiu já, perdido...
E eu morro deste ardor, que nada acalma,
               Com que aspiro debalde à minha própria alma.