Sobre o planalto adormecido
Num frio leito de inverno,
Agasalhado de brumas,
Um Sol terno,
Distraído...
De longe, a montanha sombria
Exala uma aragem fria.
Cheira a serra,
A terra,
Morta...
Mas com seu odor mais forte,
Ao apelo do vento norte
Responde
A minha melancolia...
Numa colina humilhada
De chuva, de ventanias,
Crucificado num céu dorido,
Surge um pastor como um vencido.
Em fila, atrás,
Vem o rebanho humílimo balindo;
Traz nos olhos a paz,
A paz grave da serra;
E entre os dorsos compactos, de lã fina,
Paira a sombra primeira aventurosa,
O alvoroço da noite misteriosa,
O pranto da neblina!...
quinta-feira, 5 de janeiro de 2017
quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
#260 - RETRATO DE PABLO, VELHO (Claudia Roquette-Pinto)
da sombra seu rosto se lança
um peixe
uma lua africana
boiando à superfície gasta e gris
a calva não dava um aviso
dos olhos vivos
de água, vivos
que engendram antes de ver
a testa de touro tem brio
empurra um nariz repartido:
uma face enfrenta,
a outra subtrai
o resto são rugas e ricto
papiro
e o som de cascos ancestrais
um peixe
uma lua africana
boiando à superfície gasta e gris
a calva não dava um aviso
dos olhos vivos
de água, vivos
que engendram antes de ver
a testa de touro tem brio
empurra um nariz repartido:
uma face enfrenta,
a outra subtrai
o resto são rugas e ricto
papiro
e o som de cascos ancestrais
segunda-feira, 2 de janeiro de 2017
#259 - DA QUIETAÇÃO (Frei Agostinho da Cruz)
Dos males, que passei no povoado,
Fugi para esta Serra erma e deserta,
Vendo que quem servir seu Deus acerta,
Certo tem tudo o mais ter acertado.
E para mais pureza ser forçado
Mostrar a paciência descoberta,
Que quando o tentador se desconcerta,
O paciente fica concertado.
Passou a furiosa tempestade,
Ouve-se a voz da rola em nossa terra,
Soando com maior suavidade.
Cobriu-se d'alvas flores toda a Serra,
A minha alma de doce saudade,
Em paz me faz amor divina guerra.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2016
#258 - "Retirados à altura da sua idade, ouviam." (Fernando Echevarría)
Retirados à altura da sua idade, ouviam.
Mas ouviam frequências onde o rumor do mundo,
esbatido, somente amanhecia
azul visível, atento timbre e pulso.
Ouviam tudo quanto a si se ouvia
no concerto de tudo.
E nessa solidão de intensa companhia
em que a altura da idade era um azul profundo.
quarta-feira, 28 de dezembro de 2016
#257 - VOLÚPIA (Florbela Espanca)
No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frémito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!
A sombra entre a mentira e a verdade…
A nuvem que arrastou o vento norte…
-- Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!
Trago dálias vermelhas no regaço…
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!
E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças…
sábado, 24 de dezembro de 2016
#256 - NATAL À BEIRA-RIO (David Mourão-Ferreira)
É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
a trazer-me da água a infância ressurecta.
Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
que ficava, no cais, à noite iluminado...
Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
mais da terra fazia o norte de quem erra.
Vem tu, Poesia, vem agora conduzir-me
à beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?
sexta-feira, 23 de dezembro de 2016
#255 - NATAL CHIQUE (Vitorino Nemésio)
Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na minha pressa e pouco amor.
Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.
Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado...
Só esse pobre me pareceu Cristo.
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na minha pressa e pouco amor.
Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.
Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado...
Só esse pobre me pareceu Cristo.
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