Ah, se não fosse a névoa da manhã
E a velhinha, para ouvir a voz das cousas,
Eu não era o que sou.
Se não fosse esta fonte, que chorava,
E como nós cantava e que secou...
E este sol que eu comungo de joelhos,
Eu não era o que sou.
Ah, se não fosse este luar, que chama
Os espectros à vida e se inflitrou,
Como fluido mágico, em meu ser,
Eu não era o que sou.
Ah, se não fosse o vento, que embalou
Meu coração e as nuvens, nos seus braços,
Eu não era o que sou.
Sem esta terra funda e fundo rio,
Que ergue as asas e sobe, em claro voo;
Sem estes ermos montes e arvoredos,
Eu não era o que sou.
sexta-feira, 16 de dezembro de 2016
terça-feira, 13 de dezembro de 2016
#252 - TÚMULO DO POETA DESCONHECIDO (Carlos Ávila)
uma brochura
que mal se sustenta de pé
na biblioteca pública
de uma cidadezinha qualquer
as páginas amareladas
de uma antologia
com trezentos e tantos
tantos tantos "poetas"
um título
perdido
(muito cedo, muito cedo)
nas prateleiras de um sebo
apenas um nome
(nowhere man)
na babilônica
lista telefônica
numa obscura
repartição pública
(beneficência da língua portuguesa)
sem cura
um bando bêbado
no fundo do bar
olhando pro nada
e pensando que é o mar
no tumulto da vida -- o túmulo
requiescat in pace
& não volte jamais
que mal se sustenta de pé
na biblioteca pública
de uma cidadezinha qualquer
as páginas amareladas
de uma antologia
com trezentos e tantos
tantos tantos "poetas"
um título
perdido
(muito cedo, muito cedo)
nas prateleiras de um sebo
apenas um nome
(nowhere man)
na babilônica
lista telefônica
numa obscura
repartição pública
(beneficência da língua portuguesa)
sem cura
um bando bêbado
no fundo do bar
olhando pro nada
e pensando que é o mar
no tumulto da vida -- o túmulo
requiescat in pace
& não volte jamais
segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
#251 - DESLUMBRAMENTOS (Cesário Verde)
Milady, é perigoso contemplá-la,
Quando passa aromática e normal,
Com seu tipo tão nobre e tão de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.
Sem que nisso a desgoste ou desenfade,
Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,
Eu vejo-a, com real solenidade,
Ir impondo toilettes complicadas!...
Em si tudo me atrai como um tesoiro:
O seu ar pensativo e senhoril,
A sua voz que tem um timbre de oiro
E o seu nevado e lúcido perfil!
Ah! Como me estonteia e me fascina...
E é, na graça distinta do seu porte,
Como a Moda supérflua e feminina,
E tão alta e serena como a Morte!...
Eu ontem encontrei-a, quando vinha,
Britânica, e fazendo-me assombrar;
Grande dama fatal, sempre sòzinha,
E com firmeza e música no andar!
O seu olhar possui, num jogo ardente,
Um arcanjo e um demónio a iluminá-lo;
Como um florete, fere agudamente,
E afaga como o pêlo dum ragalo!
Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,
O modo diplomático e orgulhoso
Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.
E enfim prossiga altiva com a Fama,
Sem sorrisos, dramática, cortante;
Que eu procuro fundir na minha chama
Seu ermo coração, como um brilhante.
Mas cuidado, milady, não se afoite,
Que hão-de acabar os bárbaros reais;
E os povos humilhados pela noite,
Para a vingança aguçam os punhais.
E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,
Sob o cetim do Azul e as andorinhas,
Eu hei-de ver errar, alucinadas,
E arrastando farrapos -- as rainhas!
Quando passa aromática e normal,
Com seu tipo tão nobre e tão de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.
Sem que nisso a desgoste ou desenfade,
Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,
Eu vejo-a, com real solenidade,
Ir impondo toilettes complicadas!...
Em si tudo me atrai como um tesoiro:
O seu ar pensativo e senhoril,
A sua voz que tem um timbre de oiro
E o seu nevado e lúcido perfil!
Ah! Como me estonteia e me fascina...
E é, na graça distinta do seu porte,
Como a Moda supérflua e feminina,
E tão alta e serena como a Morte!...
Eu ontem encontrei-a, quando vinha,
Britânica, e fazendo-me assombrar;
Grande dama fatal, sempre sòzinha,
E com firmeza e música no andar!
O seu olhar possui, num jogo ardente,
Um arcanjo e um demónio a iluminá-lo;
Como um florete, fere agudamente,
E afaga como o pêlo dum ragalo!
Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,
O modo diplomático e orgulhoso
Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.
E enfim prossiga altiva com a Fama,
Sem sorrisos, dramática, cortante;
Que eu procuro fundir na minha chama
Seu ermo coração, como um brilhante.
Mas cuidado, milady, não se afoite,
Que hão-de acabar os bárbaros reais;
E os povos humilhados pela noite,
Para a vingança aguçam os punhais.
E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,
Sob o cetim do Azul e as andorinhas,
Eu hei-de ver errar, alucinadas,
E arrastando farrapos -- as rainhas!
sexta-feira, 9 de dezembro de 2016
#250 - CLAMAVI AD TE (Carlos Queirós)
Apenas hoje! Apenas uma vez,
Fala de modo que a verdade seja
Tão clara e transparente, que eu a veja
Num cristal da mais pura limpidez!
Talvez seja loucura o que deseja
A minha insaciedade. Sim, talvez...
Que tu fosses, falando, a outra que és,
Com a alma nos lábios, quando beija.
Mal empregado privilégio, a fala,
Que traduz a verdade em que pensamos,
As palavras gastando em ocultá-la!
Que seja assim quando se odeia, vamos...
Mas para quê se dissimula ou cala,
Quando tudo nos diz que nos amamos?!
Fala de modo que a verdade seja
Tão clara e transparente, que eu a veja
Num cristal da mais pura limpidez!
Talvez seja loucura o que deseja
A minha insaciedade. Sim, talvez...
Que tu fosses, falando, a outra que és,
Com a alma nos lábios, quando beija.
Mal empregado privilégio, a fala,
Que traduz a verdade em que pensamos,
As palavras gastando em ocultá-la!
Que seja assim quando se odeia, vamos...
Mas para quê se dissimula ou cala,
Quando tudo nos diz que nos amamos?!
terça-feira, 6 de dezembro de 2016
#249 - ARRÁBIDA (Júlio Evangelista)
O vento bate na face
De quem sobe àquela serra.
Vento que por ali erra
Bate na face a quem passe
Perto do cimo da serra.
Bate forte, o vento forte,
Chicoteando com força,
Ao vir das bandas do norte,
Chicoteando com força,
Dono da serra e da morte.
Consente, vento, que eu passe
Pelo alto desta serra
E não me batas na face
Porque, se mais não bastasse,
Basta eu ser da tua terra.
Não grites assim tão forte
Nem te exaltes contra mim,
Porque eu também sou do norte:
Donde tu vens, também vim,
Vento que ventas do norte.
Venho ver frei Agostinho;
Trazer ao Frade saudades
Das verdes terras do Minho:
Venho falar de saudades
Com o Poeta Agostinho.
Morreu o Sebastião
Que lhe falava, falava,
Das coisas do coração.
E o frade está desolado
Era quase como um irmão!...
Ele mora ali em cima
E a conversa não demora.
Venho falar-lhe do Lima,
Venho falar-lhe de Ponte,
E outras coisas que ele ignora.
Regresso depois ao Minho,
Vento que sopras do norte
E guardas Frei Agostinho.
Se um dia quiser recados,
Traze-los tu, vento norte?
Arrábida, 8/3/53
domingo, 4 de dezembro de 2016
#248 - CHAMARAM-ME CIGANO (José Afonso)
Chamaram-me um dia
Cigano e maltês
Menino, não és boa rês
Abri uma cova
Na terra mais funda
Fiz dela
A minha sepultura
Entrei numa gruta
Matei um tritão
Mas tive
O diabo na mão
Havia um comboio
Já pronto a largar
E vi
O diabo a tentar
Pedi-lhe um cruzado
Fiquei logo ali
Num leito
De penas dormi
Puseram-me a ferros
Soltaram-me o cão
Mas tive o diabo na mão
Voltei de charola
De cilha e arnez
Amigo, vem cá
Outra vez
Subi uma escada
Ganhei dinheirama
Senhor D. Fulano Marquês
Perdi na roleta
Ganhei no gamão
Mas tive
O diabo na mão
Ao dar uma volta
Caí do lancil
E veio
O diabo a ganir
Nadavam piranhas
Na lagoa escura
Tamanhas
Que tal nunca vi
Limpei a viseira
Peguei no arpão
Mas tive
O diabo na mão
quinta-feira, 1 de dezembro de 2016
#247 - AQUI (Carlos Ávila)
continuar aqui
apesar de
roendo pedra
comendo amor
(montanhas?
são tão estranhas
acima -- impassível
l'azur l'azur l'azur...
na única cidade
com abóbada celeste
abaixo -- impossível
vida sem saída
labirintos: look around
the lonely people)
continuar aqui
à beira de
comendo pedra
roendo amor
quarta-feira, 30 de novembro de 2016
#246 - A VARIEDADE DO MUNDO (António Barbosa Bacelar)
Este nasce, outro morre, acolá soa
Um ribeiro que corre, aqui suave,
Um rouxinol se queixa brando e grave,
Um leão c'o rugido o monte atroa.
Aqui corre uma fera, acolá voa
C'o grãozinho na boca ao ninho, ua ave,
Um derruba o edifício, outro ergue a trave,
Um caça, outro pesca, outro enferoa.
Um nas armas se alista, outro as pendura
Ao soberbo Ministro aquele adora,
Outro segue do Paço a sombra amada.
Este muda de amor, aquele atura.
Do bem, de que um se alegra, o outro chora...
Oh Mundo, oh sombra, oh zombaria, oh nada!
Um ribeiro que corre, aqui suave,
Um rouxinol se queixa brando e grave,
Um leão c'o rugido o monte atroa.
Aqui corre uma fera, acolá voa
C'o grãozinho na boca ao ninho, ua ave,
Um derruba o edifício, outro ergue a trave,
Um caça, outro pesca, outro enferoa.
Um nas armas se alista, outro as pendura
Ao soberbo Ministro aquele adora,
Outro segue do Paço a sombra amada.
Este muda de amor, aquele atura.
Do bem, de que um se alegra, o outro chora...
Oh Mundo, oh sombra, oh zombaria, oh nada!
terça-feira, 29 de novembro de 2016
#245 - "não pude amar mais nada" (Fernando Assis Pacheco)
não pude amar mais nada
não pude amar mais ninguém
e mesmo que te minta
é o contrário disso
e mesmo que te minta
é a verdade seca
posta ali às avessas;
não pude amar mais claro
não pude amar mais ninguém
e mesmo que te minta
é o contrário disso
e mesmo que te minta
é a verdade seca
posta ali às avessas;
não pude amar mais claro
quinta-feira, 24 de novembro de 2016
#244 - COLEGIAL (José Régio)
Em cima da minha mesa,
Da minha mesa de estudo,
Mesa da minha tristeza
Em que, de noite e de dia,
Rasgo as folhas, leio tudo
Destes livros em que estudo,
E me estudo
(Eu já me estudo...)
E me estudo,
A mim,
Também,
Em cima da minha mesa,
Tenho o teu retrato, Mãe!
À cabeceira do leito,
Dentro dum lindo caixilho,
Tenho uma Nossa Senhora
Que venero a toda a hora...
Ai minha Nossa Senhora
Que se parece contigo,
E que tem, ao peito,
Um filho
(O que ainda é mais estranho)
Que se parece comigo,
Num retratinho,
Que tenho,
De menino pequenino...!
No fundo da minha mala,
Mesmo lá no fundo a um canto,
Não lhes vá tocar alguém,
(Quem as lesse, o que entendia?
Só riria
Do que nos comove a nós...)
Já tenho três maços, Mãe,
Das cartas que tu me escreves
Desde que saí de casa...
Três maços -- e nada leves! --
Atados com um retrós...
Se não fora eu ter-te assim,
A toda a hora,
Sempre à beirinha de mim,
(Sei agora
Que isto de a gente ser grande
Não é como se nos pinta...)
Mãe!, já teria morrido,
Ou já teria fugido,
Ou já teria bebido
Algum tinteiro de tinta!
Da minha mesa de estudo,
Mesa da minha tristeza
Em que, de noite e de dia,
Rasgo as folhas, leio tudo
Destes livros em que estudo,
E me estudo
(Eu já me estudo...)
E me estudo,
A mim,
Também,
Em cima da minha mesa,
Tenho o teu retrato, Mãe!
À cabeceira do leito,
Dentro dum lindo caixilho,
Tenho uma Nossa Senhora
Que venero a toda a hora...
Ai minha Nossa Senhora
Que se parece contigo,
E que tem, ao peito,
Um filho
(O que ainda é mais estranho)
Que se parece comigo,
Num retratinho,
Que tenho,
De menino pequenino...!
No fundo da minha mala,
Mesmo lá no fundo a um canto,
Não lhes vá tocar alguém,
(Quem as lesse, o que entendia?
Só riria
Do que nos comove a nós...)
Já tenho três maços, Mãe,
Das cartas que tu me escreves
Desde que saí de casa...
Três maços -- e nada leves! --
Atados com um retrós...
Se não fora eu ter-te assim,
A toda a hora,
Sempre à beirinha de mim,
(Sei agora
Que isto de a gente ser grande
Não é como se nos pinta...)
Mãe!, já teria morrido,
Ou já teria fugido,
Ou já teria bebido
Algum tinteiro de tinta!
quarta-feira, 23 de novembro de 2016
#243 - GAZETILHA (Fernando Pessoa, enquanto Álvaro de Campos)
Dos Lloyd Georges da Babilónia
Não reza a história nada.
Dos Briands da Assíria ou do Egito,
Dos Trotskys de qualquer colónia
Grega ou romana já passada,
O nome é morto, inda que escrito.
Só um parvo dum poeta, ou um louco
Que fazia filosofia,
Ou um geómetra maduro,
Sobrevive a esse tanto pouco
Que está lá para trás no escuro
E nem a história já historia.
Ó grandes homens do Momento!
Ó grandes glórias a ferver
De quem a obscuridade foge!
Tratem da fama e do comer,
Que amanhã é dos loucos de hoje!
Não reza a história nada.
Dos Briands da Assíria ou do Egito,
Dos Trotskys de qualquer colónia
Grega ou romana já passada,
O nome é morto, inda que escrito.
Só um parvo dum poeta, ou um louco
Que fazia filosofia,
Ou um geómetra maduro,
Sobrevive a esse tanto pouco
Que está lá para trás no escuro
E nem a história já historia.
Ó grandes homens do Momento!
Ó grandes glórias a ferver
De quem a obscuridade foge!
Tratem da fama e do comer,
Que amanhã é dos loucos de hoje!
sexta-feira, 18 de novembro de 2016
#242 - "Todo o Verão tem a sua sombra" (Fernando Jorge Fabião)
Todo o Verão tem a sua sombra
a sua pequena morte
homens lentos nas adegas
(poços de frescura)
imaginam ofícios sublimes
presságios
pequenas conjuras
Todo o Verão tem o seu assombro
paisagens altas
onde principio a escrever
(num silêncio de sinos)
vocábulos escassos, dissonâncias
numa saudade de rosas e luz estilhaçada.
segunda-feira, 14 de novembro de 2016
#241 - ANTERO DE QUENTAL, O ANJO CANSADO (Emanuel Jorge Botelho)
os dias iam indo sem sair da noite.
todas as manhãs um cão entrava nos seus passos para lhe fazer companhia.
colocou tudo dentro de uma rasura de soneto e fechou a porta.
fechar a alma era coisa já antiga. como uma rosa que esqueceu o seu nome e já não sabe as palavras de cor.
a vida poucas vezes lhe deu tempo de guardar no bolso o que era do silêncio, esse riso de hiena armadilhado que põe mel no rumor do medo.
chegou ao Campo de São Francisco à hora que acordara.
a morte já lá estava com as asas recolhidas.
sentou-se, deu ao cão um longo afago, aconchegou-o junto às suas pernas, e deixou pousar nos lábios o sal de duas lágrimas.
depois, devagarinho, tirou do bolso a mão direita e deu dois tiros na morte.
no chão, desde aquele dia, ficou o recorte de uma sombra.
quem a vê, dá-lhe o nome de sudário.
e reza.
todas as manhãs um cão entrava nos seus passos para lhe fazer companhia.
colocou tudo dentro de uma rasura de soneto e fechou a porta.
fechar a alma era coisa já antiga. como uma rosa que esqueceu o seu nome e já não sabe as palavras de cor.
a vida poucas vezes lhe deu tempo de guardar no bolso o que era do silêncio, esse riso de hiena armadilhado que põe mel no rumor do medo.
chegou ao Campo de São Francisco à hora que acordara.
a morte já lá estava com as asas recolhidas.
sentou-se, deu ao cão um longo afago, aconchegou-o junto às suas pernas, e deixou pousar nos lábios o sal de duas lágrimas.
depois, devagarinho, tirou do bolso a mão direita e deu dois tiros na morte.
no chão, desde aquele dia, ficou o recorte de uma sombra.
quem a vê, dá-lhe o nome de sudário.
e reza.
Ilha de S. Miguel, Açores
quarta-feira, 2 de novembro de 2016
#240 - NO TÚMULO DUMA CRIANÇA (Augusto Gil)
(De Diodoro)
Era perfeitamente um passarinho
Esbelto, saltarico e cantador...
Acolhe-a com carinho,
Recebe-a com amor,
E sê-lhe levezinha, ó terra mãe!
Pois que tão leve ela te foi também...
Era perfeitamente um passarinho
Esbelto, saltarico e cantador...
Acolhe-a com carinho,
Recebe-a com amor,
E sê-lhe levezinha, ó terra mãe!
Pois que tão leve ela te foi também...
sexta-feira, 28 de outubro de 2016
#239 - ÉCLOGA OU CANÇÃO ABANDONADA (Cristovam Pavia)
Na folha bailada
Levada
No vento,
Vai meu pensamento...
Na cinza delida
Espargida
Pelo rio,
Vai meu olhar frio...
E no teu sorriso
Da mais lisa
Quietação...
O meu coração...
Levada
No vento,
Vai meu pensamento...
Na cinza delida
Espargida
Pelo rio,
Vai meu olhar frio...
E no teu sorriso
Da mais lisa
Quietação...
O meu coração...
quinta-feira, 27 de outubro de 2016
#238 "Anjo da infância," (Teixeira de Pascoais)
Anjo da infância,
Coroado de rosas purpurinas!
Aquele que nos vela o nascimento
E que nos embala o berço...
E, coroado,
De lírios roxos,
Há-de velar a nossa morte
E, à luz da lua, o nosso túmulo,
Pois morrer não é mais do que voltar
A antes de nascer...
Coroado de rosas purpurinas!
Aquele que nos vela o nascimento
E que nos embala o berço...
E, coroado,
De lírios roxos,
Há-de velar a nossa morte
E, à luz da lua, o nosso túmulo,
Pois morrer não é mais do que voltar
A antes de nascer...
sc. 1952
S. J. de Gatão
terça-feira, 25 de outubro de 2016
#237 - SONETO (Carlos Queirós)
De ti não quero mais do que a memória
Das breves horas idas que me deste,
Como a palma, depois duma vitória...
-- E nada mais dessa vitória reste.
De neblina um luar frio reveste
O meu passado: a infância foi-me inglória;
E dela não ficou mais do que a história
Dum menino, uma fada e um cipreste.
Não mais serei contigo neste vário
Campo, sonhando, em vaga liquescência...
Luz coada através dum aquário.
(Entanto, a serra tem a consciência
Do meu passar por ela solitário,
Como outrora, na minha adolescência).
Das breves horas idas que me deste,
Como a palma, depois duma vitória...
-- E nada mais dessa vitória reste.
De neblina um luar frio reveste
O meu passado: a infância foi-me inglória;
E dela não ficou mais do que a história
Dum menino, uma fada e um cipreste.
Não mais serei contigo neste vário
Campo, sonhando, em vaga liquescência...
Luz coada através dum aquário.
(Entanto, a serra tem a consciência
Do meu passar por ela solitário,
Como outrora, na minha adolescência).
sexta-feira, 21 de outubro de 2016
#236 - "Fruto de sol na minha boca." (João José Cochofel)
Fruto de sol na minha boca.
-- Terra tão vasta
e a vida tão pouca!
De Inverno e de Verão faça sol de Agosto.
-- Fruto na boca
deixou o seu gosto.
Assim deito meus olhos à flor do mundo.
Nem me peçam mais:
os lagos serenos têm menos fundo.
-- Terra tão vasta
e a vida tão pouca!
De Inverno e de Verão faça sol de Agosto.
-- Fruto na boca
deixou o seu gosto.
Assim deito meus olhos à flor do mundo.
Nem me peçam mais:
os lagos serenos têm menos fundo.
quinta-feira, 20 de outubro de 2016
#235 - AS DESENCANTADAS (Martins Fontes)
É belo ver brincarem as crianças!
É belo ver cantarem as raparigas!
Esparzindo alegrias e esperanças,
Desfolhando os amores em cantigas!
É belo ver, em tardes vitoriosas,
Os poetas, os heróis, os combatentes,
Sob as chuvas das pétalas de rosas,
Sob aplausos contínuos e frementes!
É belo ver as mães enamoradas!
É belo ver os sábios entretidos!
Por milhares de seres adoradas!
Por milhares de seres benqueridos!
Mas o que há de mais íntimo e profundo,
E mais consola o coração humano,
Sim, o que há de mais belo! é, neste mundo,
Ver um punhal no peito de um tirano!
É belo ver cantarem as raparigas!
Esparzindo alegrias e esperanças,
Desfolhando os amores em cantigas!
É belo ver, em tardes vitoriosas,
Os poetas, os heróis, os combatentes,
Sob as chuvas das pétalas de rosas,
Sob aplausos contínuos e frementes!
É belo ver as mães enamoradas!
É belo ver os sábios entretidos!
Por milhares de seres adoradas!
Por milhares de seres benqueridos!
Mas o que há de mais íntimo e profundo,
E mais consola o coração humano,
Sim, o que há de mais belo! é, neste mundo,
Ver um punhal no peito de um tirano!
quarta-feira, 19 de outubro de 2016
#234 - CHUVA OBLÍQUA (II) (Fernando Pessoa)
Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça...
Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro...
O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar...
Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a água no facto de haver coro...
A missa é um automóvel que passa
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste...
Súbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
Com o som de rodas de automóvel...
E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa...
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça...
Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro...
O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar...
Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a água no facto de haver coro...
A missa é um automóvel que passa
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste...
Súbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
Com o som de rodas de automóvel...
E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa...
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