Na folha bailada
Levada
No vento,
Vai meu pensamento...
Na cinza delida
Espargida
Pelo rio,
Vai meu olhar frio...
E no teu sorriso
Da mais lisa
Quietação...
O meu coração...
sexta-feira, 28 de outubro de 2016
quinta-feira, 27 de outubro de 2016
#238 "Anjo da infância," (Teixeira de Pascoais)
Anjo da infância,
Coroado de rosas purpurinas!
Aquele que nos vela o nascimento
E que nos embala o berço...
E, coroado,
De lírios roxos,
Há-de velar a nossa morte
E, à luz da lua, o nosso túmulo,
Pois morrer não é mais do que voltar
A antes de nascer...
Coroado de rosas purpurinas!
Aquele que nos vela o nascimento
E que nos embala o berço...
E, coroado,
De lírios roxos,
Há-de velar a nossa morte
E, à luz da lua, o nosso túmulo,
Pois morrer não é mais do que voltar
A antes de nascer...
sc. 1952
S. J. de Gatão
terça-feira, 25 de outubro de 2016
#237 - SONETO (Carlos Queirós)
De ti não quero mais do que a memória
Das breves horas idas que me deste,
Como a palma, depois duma vitória...
-- E nada mais dessa vitória reste.
De neblina um luar frio reveste
O meu passado: a infância foi-me inglória;
E dela não ficou mais do que a história
Dum menino, uma fada e um cipreste.
Não mais serei contigo neste vário
Campo, sonhando, em vaga liquescência...
Luz coada através dum aquário.
(Entanto, a serra tem a consciência
Do meu passar por ela solitário,
Como outrora, na minha adolescência).
Das breves horas idas que me deste,
Como a palma, depois duma vitória...
-- E nada mais dessa vitória reste.
De neblina um luar frio reveste
O meu passado: a infância foi-me inglória;
E dela não ficou mais do que a história
Dum menino, uma fada e um cipreste.
Não mais serei contigo neste vário
Campo, sonhando, em vaga liquescência...
Luz coada através dum aquário.
(Entanto, a serra tem a consciência
Do meu passar por ela solitário,
Como outrora, na minha adolescência).
sexta-feira, 21 de outubro de 2016
#236 - "Fruto de sol na minha boca." (João José Cochofel)
Fruto de sol na minha boca.
-- Terra tão vasta
e a vida tão pouca!
De Inverno e de Verão faça sol de Agosto.
-- Fruto na boca
deixou o seu gosto.
Assim deito meus olhos à flor do mundo.
Nem me peçam mais:
os lagos serenos têm menos fundo.
-- Terra tão vasta
e a vida tão pouca!
De Inverno e de Verão faça sol de Agosto.
-- Fruto na boca
deixou o seu gosto.
Assim deito meus olhos à flor do mundo.
Nem me peçam mais:
os lagos serenos têm menos fundo.
quinta-feira, 20 de outubro de 2016
#235 - AS DESENCANTADAS (Martins Fontes)
É belo ver brincarem as crianças!
É belo ver cantarem as raparigas!
Esparzindo alegrias e esperanças,
Desfolhando os amores em cantigas!
É belo ver, em tardes vitoriosas,
Os poetas, os heróis, os combatentes,
Sob as chuvas das pétalas de rosas,
Sob aplausos contínuos e frementes!
É belo ver as mães enamoradas!
É belo ver os sábios entretidos!
Por milhares de seres adoradas!
Por milhares de seres benqueridos!
Mas o que há de mais íntimo e profundo,
E mais consola o coração humano,
Sim, o que há de mais belo! é, neste mundo,
Ver um punhal no peito de um tirano!
É belo ver cantarem as raparigas!
Esparzindo alegrias e esperanças,
Desfolhando os amores em cantigas!
É belo ver, em tardes vitoriosas,
Os poetas, os heróis, os combatentes,
Sob as chuvas das pétalas de rosas,
Sob aplausos contínuos e frementes!
É belo ver as mães enamoradas!
É belo ver os sábios entretidos!
Por milhares de seres adoradas!
Por milhares de seres benqueridos!
Mas o que há de mais íntimo e profundo,
E mais consola o coração humano,
Sim, o que há de mais belo! é, neste mundo,
Ver um punhal no peito de um tirano!
quarta-feira, 19 de outubro de 2016
#234 - CHUVA OBLÍQUA (II) (Fernando Pessoa)
Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça...
Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro...
O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar...
Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a água no facto de haver coro...
A missa é um automóvel que passa
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste...
Súbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
Com o som de rodas de automóvel...
E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa...
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça...
Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro...
O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar...
Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a água no facto de haver coro...
A missa é um automóvel que passa
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste...
Súbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
Com o som de rodas de automóvel...
E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa...
domingo, 16 de outubro de 2016
#233 - "Um dia mais, sou menos que era» (José Bento)
Um dia mais, sou menos que era
há momentos: rasurei o rosto
a barba que me embuça
sem imaginação nem sono.
Mas ela não se rende. Continua
a vegetar, raiz no sangue,
a mancha que parda punge
na máscara. E derrama-se.
Esta chaga não dói, ao supurar
contra o metal contrário:
é um mênstruo inesgotável,
servil, embora másculo.
Narcisismo ancestral, a matutina
perseguição aos pêlos,
enquanto o olhar comina o insulto
dos anos que fluem sob o espelho.
A pele não repulsa nunca a lâmina:
nem ao ser já pedra musguenta
e, ao despedi-la, outros receiem
que dela ainda esta erva cresça.
Subscrever:
Mensagens (Atom)






