sexta-feira, 14 de outubro de 2016

#232 - "Feliz do que é levado a enterrar," (Reinaldo Ferreira [F.º]

Feliz do que é levado a enterrar,
Tão indiferente como quem nasceu!
Feliz do que não soube desejar,
Feliz, bem mais feliz do que sou eu!

Feliz do que não riu para não chorar,
Feliz do que não teve e não perdeu!
Feliz do que não sofre se ficar,
Feliz do que partiu e não sofreu!

Feliz do que acha bela e vasta a terra!
Feliz do que acredita a fome, a guerra
Terrores imaginários de crianças!

Feliz do que não ouve o mundo aos gritos,
Feliz! Felizes todos e benditos
Os que Deus fez iguais às pombas mansas...







quinta-feira, 13 de outubro de 2016

#231 - INSCRIÇÃO (Camilo Pessanha)

Eu vi a luz em um país perdido.
A minha alma é lânguida e inerme.
Oh! Quem pudesse deslizar seu ruído!
No chão sumir-se, como faz um verme...



quarta-feira, 12 de outubro de 2016

#230 - TOTI CADABRA (Arménio Vieira)

(Vida e morte severina)

        «Toti Cadabra», nome exacto para um
        ser marginal.
        Estes versos são o teu epitáfio;
        depois deles nunca mais falarão de ti.

No enterro de Toti
nem padre nem gente
na campa de Toti
nem flor de finado

Na campa-buraco
teu corpo mirrado
já eras da larva
bem antes da cova

Toti Cadabra
de vida macabra
já eras cadáver
bem antes da morte

Bem antes da morte
já eras cadáver
Toti Cadabra
de vida sinistra

O grogue e a fome
são traças são bichos
já eras da larva
bem antes da cova

No enterro de Toti
nem padre nem gente
na campa de Toti
nem flor de finado.



terça-feira, 11 de outubro de 2016

#229 - CANÇÃO DO ACASO (Alexandre d'Aragão)

Hoje que os passos fugiram,
Sonoros, da terra inteira,
Que os nossos passos na poeira
Das eras mortas expiram;

Que aguarda, em vão, penitentes
Algum deserto muslim:
-- Mesmo no meio das gentes
Ardem desertos sem fim... --

Ou a montanha salutar
O Enviado que for
Lá, da planície, incubar
Novo Verbo redentor.

Hoje que o homem, sem temores,
Há muito os deuses matou,
Só tu avivas as flores
Que o cepticismo gelou.

Vais comigo, e em tudo poisa
A tua asa, em redor:
Mudas de coisa p'ra coisa
Como as abelhas de flor.

A vida, sem o saber,
Abre-te as velas bem alto,
Aonde possas de salto,
Vento do acaso, bater.

Acaso -- o perigo vencendo,
Ou ao prazer sobrevindo --
De Ícaro as asas batendo,
Ou Dafne a Apolo fugindo...

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

#228- ALDEIA (Manuel da Fonseca)

Nove casas,
duas ruas,
ao meio das ruas
um largo,
ao meio do largo
um poço de água fria.

Tudo isto tão parado
e o céu tão baixo
que quando alguém grita para longe
um nome familiar
se assustam pombos bravos
e acordam ecos no descampado.





sexta-feira, 7 de outubro de 2016

#227 - NAVEGAÇÃO À VELA (Joaquim Namorado)

Segue:
tens nas bússolas todos os nortes
e nos sextantes
as alturas de todas as estrelas,
que foram feitas só para te guiar.

Segue,
nos teus mapas
estão marcadas todas as loxodromias
e nos portos
os cais mansos
estendem-te os braços maternais.

Vai
pelo caminho seguro
na certeza de aportar.
Vai
nos vapores das companhias
com baleeiras nos decks
e S.O.S. nas telegrafias
e cintos de salvação.

Vai
pelo boulevard iluminado,
pelos caminhos traçados
pelas velhas caravanas
do tempos dos Ramsés...

Mas deixa
que eu arrisque a minha vida
nas encruzilhadas escuras
dos bairros criminais,
e vá só
pelos desertos
com simouns e miragens
fora das rotas fatais;
deixa
que eu viva a aventura
sem bússolas e sem astros
-- como nos contos da velha pirataria
que a mim próprio eu contava
nos meus tempos de menino
e em que eu mesmo era o herói
e herói sempre invencível --
que eu amo só
as tempestades bravas
que partem os lemes e os mastros
e rasgam as velas
(asas agonizando nos topos
entre tufões)
e as ondas
grandes como montanhas
que nos arrastam das estrelas aos abismos;
e as marés irresistíveis
que me encalham nos baixios...
Que eu amo só
a vida arriscada
numa espelunca esquecida
duma rua de Xangai
num duelo de facada.

Vai
pelos caminhos seguros
nos vapores das companhias
com certeza de aportar...
deixa
que eu continue sendo
o último tripulante
da fragata naufragada
neste mar dos tubarões.



quinta-feira, 6 de outubro de 2016

#226 - ESPERANÇA (Vicente de Carvalho)

Só a leve esperança em toda a vida
disfarça a pena de viver, mais nada;
nem é mais a existência, resumida,
que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
sonho que a traz ansiosa e embevecida,
é uma hora feliz, sempre adiada
e que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
árvore milagrosa, que sonhamos
toda arreada de dourados pomos,

existe, sim; mas nós não na alcançamos
porque está sempre apenas onde a pomos
e nunca a pomos onde nós estamos.