(Vida e morte severina)
«Toti Cadabra», nome exacto para um
ser marginal.
Estes versos são o teu epitáfio;
depois deles nunca mais falarão de ti.
No enterro de Toti
nem padre nem gente
na campa de Toti
nem flor de finado
Na campa-buraco
teu corpo mirrado
já eras da larva
bem antes da cova
Toti Cadabra
de vida macabra
já eras cadáver
bem antes da morte
Bem antes da morte
já eras cadáver
Toti Cadabra
de vida sinistra
O grogue e a fome
são traças são bichos
já eras da larva
bem antes da cova
No enterro de Toti
nem padre nem gente
na campa de Toti
nem flor de finado.
quarta-feira, 12 de outubro de 2016
terça-feira, 11 de outubro de 2016
#229 - CANÇÃO DO ACASO (Alexandre d'Aragão)
Hoje que os passos fugiram,
Sonoros, da terra inteira,
Que os nossos passos na poeira
Das eras mortas expiram;
Que aguarda, em vão, penitentes
Algum deserto muslim:
-- Mesmo no meio das gentes
Ardem desertos sem fim... --
Ou a montanha salutar
O Enviado que for
Lá, da planície, incubar
Novo Verbo redentor.
Hoje que o homem, sem temores,
Há muito os deuses matou,
Só tu avivas as flores
Que o cepticismo gelou.
Vais comigo, e em tudo poisa
A tua asa, em redor:
Mudas de coisa p'ra coisa
Como as abelhas de flor.
A vida, sem o saber,
Abre-te as velas bem alto,
Aonde possas de salto,
Vento do acaso, bater.
Acaso -- o perigo vencendo,
Ou ao prazer sobrevindo --
De Ícaro as asas batendo,
Ou Dafne a Apolo fugindo...
Sonoros, da terra inteira,
Que os nossos passos na poeira
Das eras mortas expiram;
Que aguarda, em vão, penitentes
Algum deserto muslim:
-- Mesmo no meio das gentes
Ardem desertos sem fim... --
Ou a montanha salutar
O Enviado que for
Lá, da planície, incubar
Novo Verbo redentor.
Hoje que o homem, sem temores,
Há muito os deuses matou,
Só tu avivas as flores
Que o cepticismo gelou.
Vais comigo, e em tudo poisa
A tua asa, em redor:
Mudas de coisa p'ra coisa
Como as abelhas de flor.
A vida, sem o saber,
Abre-te as velas bem alto,
Aonde possas de salto,
Vento do acaso, bater.
Acaso -- o perigo vencendo,
Ou ao prazer sobrevindo --
De Ícaro as asas batendo,
Ou Dafne a Apolo fugindo...
segunda-feira, 10 de outubro de 2016
#228- ALDEIA (Manuel da Fonseca)
Nove casas,
duas ruas,
ao meio das ruas
um largo,
ao meio do largo
um poço de água fria.
Tudo isto tão parado
e o céu tão baixo
que quando alguém grita para longe
um nome familiar
se assustam pombos bravos
e acordam ecos no descampado.
duas ruas,
ao meio das ruas
um largo,
ao meio do largo
um poço de água fria.
Tudo isto tão parado
e o céu tão baixo
que quando alguém grita para longe
um nome familiar
se assustam pombos bravos
e acordam ecos no descampado.
sexta-feira, 7 de outubro de 2016
#227 - NAVEGAÇÃO À VELA (Joaquim Namorado)
Segue:
tens nas bússolas todos os nortes
e nos sextantes
as alturas de todas as estrelas,
que foram feitas só para te guiar.
Segue,
nos teus mapas
estão marcadas todas as loxodromias
e nos portos
os cais mansos
estendem-te os braços maternais.
Vai
pelo caminho seguro
na certeza de aportar.
Vai
nos vapores das companhias
com baleeiras nos decks
e S.O.S. nas telegrafias
e cintos de salvação.
Vai
pelo boulevard iluminado,
pelos caminhos traçados
pelas velhas caravanas
do tempos dos Ramsés...
Mas deixa
que eu arrisque a minha vida
nas encruzilhadas escuras
dos bairros criminais,
e vá só
pelos desertos
com simouns e miragens
fora das rotas fatais;
deixa
que eu viva a aventura
sem bússolas e sem astros
-- como nos contos da velha pirataria
que a mim próprio eu contava
nos meus tempos de menino
e em que eu mesmo era o herói
e herói sempre invencível --
que eu amo só
as tempestades bravas
que partem os lemes e os mastros
e rasgam as velas
(asas agonizando nos topos
entre tufões)
e as ondas
grandes como montanhas
que nos arrastam das estrelas aos abismos;
e as marés irresistíveis
que me encalham nos baixios...
Que eu amo só
a vida arriscada
numa espelunca esquecida
duma rua de Xangai
num duelo de facada.
Vai
pelos caminhos seguros
nos vapores das companhias
com certeza de aportar...
deixa
que eu continue sendo
o último tripulante
da fragata naufragada
neste mar dos tubarões.
tens nas bússolas todos os nortes
e nos sextantes
as alturas de todas as estrelas,
que foram feitas só para te guiar.
Segue,
nos teus mapas
estão marcadas todas as loxodromias
e nos portos
os cais mansos
estendem-te os braços maternais.
Vai
pelo caminho seguro
na certeza de aportar.
Vai
nos vapores das companhias
com baleeiras nos decks
e S.O.S. nas telegrafias
e cintos de salvação.
Vai
pelo boulevard iluminado,
pelos caminhos traçados
pelas velhas caravanas
do tempos dos Ramsés...
Mas deixa
que eu arrisque a minha vida
nas encruzilhadas escuras
dos bairros criminais,
e vá só
pelos desertos
com simouns e miragens
fora das rotas fatais;
deixa
que eu viva a aventura
sem bússolas e sem astros
-- como nos contos da velha pirataria
que a mim próprio eu contava
nos meus tempos de menino
e em que eu mesmo era o herói
e herói sempre invencível --
que eu amo só
as tempestades bravas
que partem os lemes e os mastros
e rasgam as velas
(asas agonizando nos topos
entre tufões)
e as ondas
grandes como montanhas
que nos arrastam das estrelas aos abismos;
e as marés irresistíveis
que me encalham nos baixios...
Que eu amo só
a vida arriscada
numa espelunca esquecida
duma rua de Xangai
num duelo de facada.
Vai
pelos caminhos seguros
nos vapores das companhias
com certeza de aportar...
deixa
que eu continue sendo
o último tripulante
da fragata naufragada
neste mar dos tubarões.
quinta-feira, 6 de outubro de 2016
#226 - ESPERANÇA (Vicente de Carvalho)
Só a leve esperança em toda a vida
disfarça a pena de viver, mais nada;
nem é mais a existência, resumida,
que uma grande esperança malograda.
O eterno sonho da alma desterrada,
sonho que a traz ansiosa e embevecida,
é uma hora feliz, sempre adiada
e que não chega nunca em toda a vida.
Essa felicidade que supomos,
árvore milagrosa, que sonhamos
toda arreada de dourados pomos,
existe, sim; mas nós não na alcançamos
porque está sempre apenas onde a pomos
e nunca a pomos onde nós estamos.
disfarça a pena de viver, mais nada;
nem é mais a existência, resumida,
que uma grande esperança malograda.
O eterno sonho da alma desterrada,
sonho que a traz ansiosa e embevecida,
é uma hora feliz, sempre adiada
e que não chega nunca em toda a vida.
Essa felicidade que supomos,
árvore milagrosa, que sonhamos
toda arreada de dourados pomos,
existe, sim; mas nós não na alcançamos
porque está sempre apenas onde a pomos
e nunca a pomos onde nós estamos.
terça-feira, 4 de outubro de 2016
#225 - A UMA TRANÇA DE CABELOS NEGROS (Jerónimo Baía)
Diversa em cor, igual em bizarria
Sois, bela trança, ao lustre de Sofala;
Luto por negra, por vistosa gala,
Nas cores, noite, na beleza, dia.
Negra, porém, de amor na monarquia
Reinais, senhora, não sereis vassala;
Sombra, mas toda a luz não vos iguala,
Tristeza, mas venceis toda a alegria.
Tudo sois, mas eu tenho resoluto
Que sois só na aparência enganadora,
Negra noite, tristeza, sombra, luto.
Porém, na essência, ó doce matadora,
Quem não dirá que sois, e não diz muito,
Dia, gala, alegria, luz, senhora?
Sois, bela trança, ao lustre de Sofala;
Luto por negra, por vistosa gala,
Nas cores, noite, na beleza, dia.
Negra, porém, de amor na monarquia
Reinais, senhora, não sereis vassala;
Sombra, mas toda a luz não vos iguala,
Tristeza, mas venceis toda a alegria.
Tudo sois, mas eu tenho resoluto
Que sois só na aparência enganadora,
Negra noite, tristeza, sombra, luto.
Porém, na essência, ó doce matadora,
Quem não dirá que sois, e não diz muito,
Dia, gala, alegria, luz, senhora?
segunda-feira, 3 de outubro de 2016
#224 - POEMA DE SETE FACES (Carlos Drummond de Andrade)
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, porque me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, porque me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
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