De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se triste o que se fez amante
E de sòzinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
quinta-feira, 15 de setembro de 2016
quarta-feira, 14 de setembro de 2016
#212 - NOME (Arnaldo Antunes)
algo é o nome do homem
coisa é o nome do homem
homem é o nome do cara
isso é o nome da coisa
cara é o nome do rosto
fome é o nome do moço
homem é o nome do troço
osso é o nome do fóssil
corpo é o nome do morto
homem é o nome do outro
coisa é o nome do homem
homem é o nome do cara
isso é o nome da coisa
cara é o nome do rosto
fome é o nome do moço
homem é o nome do troço
osso é o nome do fóssil
corpo é o nome do morto
homem é o nome do outro
terça-feira, 13 de setembro de 2016
#211 - CANÇÃO NOCTURNA (Reinaldo Ferreira [F.º])
Café de cais
onde se juntam
anónimos de iguais,
os ratos dos porões,
babel de todos os calões,
rio de fumo e de incontido cio,
sexuado rio,
que busca, único mar,
mulheres de pernoitar,
unge-te a nojo, não Anfitrite,
fina ficção marinha,
mas nauseabundo
e tutelar
o vulto familiar
da Virgem Vício,
Nossa Senhora do Baixo Mundo.
onde se juntam
anónimos de iguais,
os ratos dos porões,
babel de todos os calões,
rio de fumo e de incontido cio,
sexuado rio,
que busca, único mar,
mulheres de pernoitar,
unge-te a nojo, não Anfitrite,
fina ficção marinha,
mas nauseabundo
e tutelar
o vulto familiar
da Virgem Vício,
Nossa Senhora do Baixo Mundo.
segunda-feira, 12 de setembro de 2016
#210 - RENÚNCIA (Manuel Bandeira)
Chora de manso e no íntimo... Procura
curtir em queixa o mal que te crucia:
o mundo é sem piedade e até riria
da tua inconsolável amargura.
Só a dor enobrece e é grande e é pura.
Aprende a amá-la que a amarás um dia.
Então ela será tua alegria
e será, ela só, tua ventura...
A vida é vã como a sombra que passa...
Sofre sereno e d'alma sobranceira,
sem um grito sequer, tua desgraça.
Encerra em ti tua tristeza inteira,
e pede humildemente a Deus que a faça
tua doce e constante companheira...
curtir em queixa o mal que te crucia:
o mundo é sem piedade e até riria
da tua inconsolável amargura.
Só a dor enobrece e é grande e é pura.
Aprende a amá-la que a amarás um dia.
Então ela será tua alegria
e será, ela só, tua ventura...
A vida é vã como a sombra que passa...
Sofre sereno e d'alma sobranceira,
sem um grito sequer, tua desgraça.
Encerra em ti tua tristeza inteira,
e pede humildemente a Deus que a faça
tua doce e constante companheira...
domingo, 11 de setembro de 2016
#209 - NO MEIO DO CAMINHO (Carlos Drummond de Andrade)
No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida das minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra.
sexta-feira, 9 de setembro de 2016
#208 - PAPO DE ÍNDIO (Chacal)
Veio uns ômi di saia preta
cheiu di caixinha e pó branco
qui êles disserum qui chamava açucri
Aí eles falarum e nós fechamu a cara
depois êles arrepitirum e nós fechamu o corpo
Aí eles insistirum e nós comemu êles.
cheiu di caixinha e pó branco
qui êles disserum qui chamava açucri
Aí eles falarum e nós fechamu a cara
depois êles arrepitirum e nós fechamu o corpo
Aí eles insistirum e nós comemu êles.
quinta-feira, 8 de setembro de 2016
#207 - COLONO (João Fonseca Amaral)
à memória de João Luís do Amaral
Quase perdida a memória das frias águas
escorrendo pelas encostas
bíblico fitavas esta chuva
estes ventos
estas árvores de grandes sombras.
Os caminhos da juventude entre Douro e Minho
a casa velha da quinta dos invernos
-- tudo palavras de um livro arrumado na estante
que (para o manter vivo)
de longe em longe passava pelos olhos.
Pão levedado de erros e grandezas
aos dentes da vida te deste inteiro
enquanto a cidade nascia sob os teus pés
crescia
e as raízes da rotina milímetro por milímetro
se iam afundando.
Partiste
sem te despedires
para a licençla ilimitada mais definitiva
mas entre Chamanculo e Xipamanine
o chão que pisaste
retém teu nome para sempre.
Maotas, 1953
quarta-feira, 7 de setembro de 2016
terça-feira, 6 de setembro de 2016
#205 - INÊS DE LEIRIA (Afonso Lopes Vieira)
Encontrou Fernão Mendes
No interior da China
(E em que apuros ele ia!)
A velha portuguesa,
Chamada Inês de Leiria,
Que de repente reza:
Padre Nosso que estais nos céus...
Era de português o que sabia.
Ouvindo Fernão Mendes
Esta voz que soava
(Fernão cativo e cheio de tristeza!)
O português sorria...
Padre Nosso, que estais nos céus...
A velha mais não sabia,
Mas bastava.
Boa Inês de Leiria,
Cara patrícia minha,
Embora te fizesse
A aventura imortal
De Portugal
Chinesa muito mais que portuguesa,
-- Pois por esse sorriso de Fernão
Tocas-me o coração.
Deste-lhe em tal ensejo,
Entre as misérias da viagem,
O mais gostoso e saboroso beijo
-- O da Linguagem!
No interior da China
(E em que apuros ele ia!)
A velha portuguesa,
Chamada Inês de Leiria,
Que de repente reza:
Padre Nosso que estais nos céus...
Era de português o que sabia.
Ouvindo Fernão Mendes
Esta voz que soava
(Fernão cativo e cheio de tristeza!)
O português sorria...
Padre Nosso, que estais nos céus...
A velha mais não sabia,
Mas bastava.
Boa Inês de Leiria,
Cara patrícia minha,
Embora te fizesse
A aventura imortal
De Portugal
Chinesa muito mais que portuguesa,
-- Pois por esse sorriso de Fernão
Tocas-me o coração.
Deste-lhe em tal ensejo,
Entre as misérias da viagem,
O mais gostoso e saboroso beijo
-- O da Linguagem!
domingo, 4 de setembro de 2016
#204 - CAIXA DE AMÊNDOAS (João Saraiva)
Ireis, amêndoas, saber
Que incomparável ventura
Às vezes há em sofrer.
Na boca vermelha e pura
Onde vos ides perder,
Se vos atrai certa alvura,
Muito deveis padecer.
Desta espantosa tortura
Só vos podeis defender
Duma maneira segura,
Dando-lhe o gozo e a doçura
De vos sentir derreter.
sábado, 3 de setembro de 2016
#203 - STARS FELL ON ALABAMA (Frederico Barbosa)
Cannonball plantando o tema
bala de som
redondo e reto
brilho de balão.
Nós e o nosso drama
beijo em campo branco
coração martelo
e lá no centro
eu e você.
Cannonball colhendo tempo
som canhão de pesadelo
no rosto o sopro negro
«dos combates que vão dentro do peito».
Estrelas caindo aqui
ontem, a noite
plano imaginado
e lá no centro
sexta-feira, 2 de setembro de 2016
#202 - SÃO JOÃO DA CRUZ, Murilo Mendes
Viver organizando o diamante
(Intuindo sua face) e o escondendo.
Tratá-lo com ternura castigada.
Nem mesmo no deserto suspendê-lo.
Mas
Viver consumido da sua graça.
Obedecer a esse fogo frio
Que se resolve em ponto rarefeito.
Viver: do seu silêncio se aprendendo.
Não temer sua perda em noite obscura.
E do próprio diamante já esquecido,
Morrer, do seu esqueleto esvaziado:
Para vir a ser tudo, é preciso ser nada.
(Intuindo sua face) e o escondendo.
Tratá-lo com ternura castigada.
Nem mesmo no deserto suspendê-lo.
Mas
Viver consumido da sua graça.
Obedecer a esse fogo frio
Que se resolve em ponto rarefeito.
Viver: do seu silêncio se aprendendo.
Não temer sua perda em noite obscura.
E do próprio diamante já esquecido,
Morrer, do seu esqueleto esvaziado:
Para vir a ser tudo, é preciso ser nada.
quarta-feira, 31 de agosto de 2016
#201 - SARITA (António Cardoso)
Sarita mora no musseque,
sofre no musseque,
mas passeia garrida na baixa
toda vermelha e azul,
toda sorriso branco de marfim,
e os brancos ficam a olhar,
perdidos no seu olhar.
Sarita usa brincos amarelos de lata
penteado de deusa egípcia
andar de gazela no mato,
desce à cidade
e sorri para toda a gente.
Depois, às seis e meia,
Sarita vai viver pró musseque
com os brancos perdidos no seu olhar!
sofre no musseque,
mas passeia garrida na baixa
toda vermelha e azul,
toda sorriso branco de marfim,
e os brancos ficam a olhar,
perdidos no seu olhar.
Sarita usa brincos amarelos de lata
penteado de deusa egípcia
andar de gazela no mato,
desce à cidade
e sorri para toda a gente.
Depois, às seis e meia,
Sarita vai viver pró musseque
com os brancos perdidos no seu olhar!
terça-feira, 30 de agosto de 2016
#200 - POEMA TIRADO DE UMA NOTÍCIA DE JORNAL (Manuel Bandeira)
João Gostoso era carregador de feira-livre e morava no morro de Babilônia
[num barracão sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.
[num barracão sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.
segunda-feira, 29 de agosto de 2016
#199 - "Juntei-me um dia à flor da mocidade" (Fernando Assis Pacheco)
Juntei-me um dia à flor da mocidade
partindo para Angola no Niassa
a defender eu já não sei se a raça
se as roças de café da cristandade
a minha geração tinha a idade
das grandes ilusões sempre fatais
que não chegam aos anos principais
por defeito da própria ingenuidade
a guerra era uma coisa mais a Norte
de onde ela voltaria havendo sorte
à mesma e ancestral tranquilidade
azar de uns quantos se pagaram porte
esses a que atirou a dura morte
diz-se que estão na terra da verdade
partindo para Angola no Niassa
a defender eu já não sei se a raça
se as roças de café da cristandade
a minha geração tinha a idade
das grandes ilusões sempre fatais
que não chegam aos anos principais
por defeito da própria ingenuidade
a guerra era uma coisa mais a Norte
de onde ela voltaria havendo sorte
à mesma e ancestral tranquilidade
azar de uns quantos se pagaram porte
esses a que atirou a dura morte
diz-se que estão na terra da verdade
Lisboa
28-IV-94
28-IV-94
#198 - MODA (Leila Míccolis)
Eu queria te ver,
coxas de fora,
(como de fora vejo teus pelos do peito
pela camisa de seda),
a andares na rua,
entre assobios e apalpadelas,
o olhar disperso
como quem nada percebe,
e mostrando ao sentares,
subindo-te a roupa,
a cueca combinando com a gravata.
sábado, 27 de agosto de 2016
#197 - "Lá vem nhô Cacai da ourela do mar" (Onésimo Silveira)
Lá vem nhô Cacai da ourela do mar
Acenando a sua desilusão
De todos os continentes!
Ele traz o peito afogado em maresias
E os olhos cansados da distância das horas...
Lá vem nhô Cacai
Com a boca amarga de sal
A boiar o seu corpo morto
Na calmaria da tarde!
Nhô Cacai vem alimentar os seus filhos
Com histórias de sereias...
Com histórias das farturas das Américas...
Os seus filhos acreditam nas Américas
E sabem dormir com fome...
quinta-feira, 25 de agosto de 2016
#196 - TENDERLY (Frederico Barbosa)
Claro
som
sem
brumas
redescobre
Debussy.
Incerto azul
de bardo
índigo
Mallarmé
desperto
ecoa.
O fauno é outro
e se levanta
em clarinete
sobre a lagoa
mar Ellington piano.
A orquestra é uma cobra
ninfa seduzida
à sua volta
o clarinete
olhos abertos
evoca vento
acorda e nos devora.
terça-feira, 23 de agosto de 2016
#195 - AO LONGE OS BARCOS DE FLORES (Camilo Pessanha)
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila,
-- Perdida voz que entre as mais se exila,
-- Festões de som dissimulando a hora
Na orgia, ao longe, que em clarões cintila
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila.
E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detém... Só modulada trila
A flauta flébil... Quem há-de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?
Só, incessante, um som de flauta chora...
segunda-feira, 22 de agosto de 2016
#194 - POÉTICA (Cassiano Ricardo)
1
Que é a Poesia?
uma ilha
cercada
de palavras
por todos
os lados.
2
Que é o Poeta?
um homem
que trabalha o poema
com o suor do seu rosto.
Um homem
que tem fome
como qualquer outro
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