quinta-feira, 25 de agosto de 2016

#196 - TENDERLY (Frederico Barbosa)

Claro
som
sem
brumas
redescobre
Debussy.

Incerto azul
de bardo
índigo
Mallarmé
desperto
ecoa.

O fauno é outro
e se levanta
em clarinete
sobre a lagoa
mar Ellington piano.

A orquestra é uma cobra
ninfa seduzida
à sua volta
o clarinete
olhos abertos
evoca vento
acorda e nos devora.



terça-feira, 23 de agosto de 2016

#195 - AO LONGE OS BARCOS DE FLORES (Camilo Pessanha)

Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila,
-- Perdida voz que entre as mais se exila,
-- Festões de som dissimulando a hora

Na orgia, ao longe, que em clarões cintila
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila.

E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detém... Só modulada trila
A flauta flébil... Quem há-de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora...


segunda-feira, 22 de agosto de 2016

#194 - POÉTICA (Cassiano Ricardo)

1

Que é a Poesia?
                        uma ilha
                        cercada
             de palavras
                        por todos
                        os lados.


2

Que é o Poeta?
                       um homem
que trabalha o poema
com o suor do seu rosto.
                       Um homem
             que tem fome
             como qualquer outro
                       homem.



domingo, 21 de agosto de 2016

#193 - SINAL VERMELHO (Gastão Cruz)

No carro ao
lado alguém desconhecido
exibe o seu Record no tablier
Como eu partirá quando o apito
do incorruptível árbitro o expulsar
de vez



sexta-feira, 19 de agosto de 2016

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

#191 - VIDA VITORIOSA (João de Barros)

Foi uma vida vitoriosa, é certo,
A vida que vivi nesta jornada,
-- Não da vitória que se vê de perto,
E que se alcança, apenas desejada.

Não do triunfo que sorri, incerto,
E logo é fumo, e é pó, e é cinza, e é nada,
-- Mas doutra glória que ao meu peito aperto,
E só eu vejo, pura e recatada.

Porque em silêncio conquistei, lutando,
-- Quantas vezes perdido e miserando,
Quantas vezes vencendo a própria dor --

Esta alegria de passar na vida
Sendo uma força, que jamais duvida,
E uma voz clara, como a Voz do Amor!


quarta-feira, 17 de agosto de 2016

#190 - O NOVO HOMEM (Amélia Veiga)

Traz nos olhos punhais
e mensagens secretas...
E zagaias de sonho
nas mãos negras, desertas...

Olha para nós a direito
e tem um riso branco
que lhe dilata o peito...

Passa um frio entre os homens
de receio e de espanto...

1961