terça-feira, 9 de agosto de 2016

#181 - MONUMENTO A D. JOSÉ, LISBOA (Mário António)

Opulento pedestal
Luxuriante de vida
Tropical
Sobre que pousas
-- Rei europeu
Ou marajá hindú?

«...da Arábia, da Pérsia, da Índia...»
Ausente da pureza deste céu
Rei europeu
Apetecendo palanque e especiaria
Que país foi o teu?

Esta nesga de Europa
Com vinhedos
Ou sonhadas florestas
Onde enviavas a correr
Fidalgos-cavaleiros
Criados de teus paços?

Teus cavalos ligeiros
Ou pesados elefantes 
Tropicais?...
-- Tuas glórias distantes
Nunca vistas
Sonhadas
Marajá desterrado!



segunda-feira, 8 de agosto de 2016

domingo, 7 de agosto de 2016

#179 - CONVICÇÃO (Branquinho da Fonseca)

Cai a tarde, cai a noite...
As sombras erguem-se do chão, fazem danças, contra-danças, rondas, ciladas.
As luzes da Câmara Municipal, presas aos fios que as vivem, guardam-nas e elas dançam-lhes de roda.
Eu passo; mas não passo como uma sombra: sou eu. Tenho um cartão de identidade e fatos por medida.




sexta-feira, 5 de agosto de 2016

#178 - CANGA (Carlos Nejar)

Jesualdo Monte, não és homem.
És um burro
carregado de ossos;
as palavras, insetos,
volteiam-te a garupa;
até a carne é hostil
sob a carcaça
e o presságio dos seres
te enternece.

Não te movem as fendas,
nem as urzes,
nem o jogo de vozes,
o repouso das tardes
e as vigas
que desceram ao rio 
no teu lombo.

O mundo te apertou com sua cincha
e tudo em ti
transpõe o desespero,
desapegando patas e raízes.

É esta a condição de não ser homem:
dormir, placidamente, sem remorsos,
no curral dos mortos.

É esta a condição de não ser homem:
ruminar o assombro, junto ao feno,
receber o milagre sem transtorno,
seguindo sempre, onde manda o dono.

É esta a condição de não ser homem:
lanhado o casco por chicote lesto,
zurrar, apenas, mastigando o freio.

É esta a condição de não ser homem.



quinta-feira, 4 de agosto de 2016

#177 - OS INSIGNIFICANTES (José Tolentino Mendonça)

O custo das casas
por incrível que pareça
sugere a possibilidade
de uma outra vida
a alma não mora debaixo do seu tempo
traz de tão longe a fragrância
de uma vegetação que cresce

mais abaixo junto à represa
um trecho de sombra
a estação tornou tudo amarelo uma última vez
o pinheiro, o rumor dos caçadores, a corrida atrapalhada da perdiz

nas vagas recordações
a orla de uma alegria que ninguém viu

os insignificantes flutuam
ao vento contínuo de Deus



quarta-feira, 3 de agosto de 2016

#176 - POEMA CONFIADO À MEMÓRIA DE NORA MITRANI (Alexandre O'Neill)

Se eu pudesse dizer-te: -- Senta aqui
nos meus joelhos, deixa-me alisar-te,
ó amável bichinho, o pêlo fino;
depois, a contra-pêlo, provocar-te!
Se eu pudesse juntar o mesmo fio
(infinito colar!) cada arrepio
que aos viajeiros comprazidos dedos
fizesse descobrir novos enredos!
Se eu pudesse fechar-te nesta mão,
tecedeira fiel de tantas linhas,
de tanto enredo imaginário, vão,
e incitar alguém: -- Vê se adivinhas...
      Então um fértil jogo amor seria.
      Não este descerrar a mão vazia!




domingo, 10 de julho de 2016

#175 - RECiTATIVO VIII (Vasco Graça Moura)

quando, de duas casas contíguas, uma é demolida
e ficam na parede da outra os restos inegáveis
da primeira, rectângulos alinhados da
pintura de cada divisão e onde às vezes
se nota ainda a marca de uma estante
e se fica a saber que «ali houve uma casa», elemento
preciso de uma hierarquia de coisas e pessoas
administradas sob o estuque da teologia, quando
as águas e as luas parecem ter escorrido
com alguma dureza no pano da parede
e uma espécie de púbis alastra na pintura, sombriamente,
como um fumo muito velho, um fumo da razão
tocada pelo vento, e cresce mato
na base