domingo, 24 de abril de 2016

#160 - LÍNGUA PORTUGUESA (Olavo Bilac)

Última flor do Lácio, inculta e bela, 
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: «Meu filho!»
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!


sexta-feira, 22 de abril de 2016

#159 - JAZZ (Ricardo Mainieri)

O jazz
aquece a noite
generoso sopro
substitui a escuridão.

Charlie Parker
passeia
invisível pela sala
se instala
no lado avesso da razão.

A raça humana
cartesiana
sai em busca de outros tons.


quinta-feira, 21 de abril de 2016

# 158 - O FUTEBOL BRASILEIRO EVOCADO NA EUROPA (João Cabral de Melo Neto)

A bola não é a inimiga
como o touro, numa corrida;
e embora seja um utensílio
caseiro e que se usa sem risco,
não é o utensílio impessoal,
sempre manso, de gesto usual:
é um utensílio semivivo,
de reações próprias como bicho,
e que, como bicho, é mister
(mais que bicho, como mulher)
usar com malícia e atenção
dando aos pés astúcias de mão.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

#157 - "Madre velida, meu amigo vi;" (Airas Corpancho)

Madre velida, meu amigo vi;
non lhi falei e con el me perdi,
     e moir' agora, querendo-lhi ben;
     non lhi falei, ca o tiv' en desden;
     moiro eu, madre, querendo-lhi ben.

Se lh' eu fiz torto, lazerar-mh-o-ei
con gran dereito, ca lhi non falei;
     e moir' agora, querendo-lhi ben;
     non lhi falei, ca o tiv' en desden;
     moiro eu, madre, querendo-lhi ben.

Madre velida, ide-lhi dizer
que faça ben e me venha veer;
     e moir' agora, querendo-lhi ben;
     non lhi falei, ca o tiv'en desden;
     moiro eu, madre, querendo-lhi ben.

terça-feira, 19 de abril de 2016

#156 - A FOLHA DE SALGUEIRO (António Feijó)

Adoro essa mulher moça e formosa,
Que à janela, a sonhar, vejo esquecida,
Não por ter uma casa sumptuosa
Junto ao Rio Amarelo construída...
-- Amo-a porque uma folha melindrosa
Deixou cair nas águas, distraída.

Também adoro a brisa do Levante,
Não por trazer a essência virginal
Do pessegueiro que floriu distante,
No pendor da Montanha Oriental...
Amo-a porque impeliu a folha errante
Ao meu batel, no lago de cristal.

E adoro a folha, não por ter lembrado
A nova primavera que rompeu,
Mas por causa do nome idolatrado
Que essa jovem mulher nela escreveu
Com a doirada agulha do bordado...
          E esse nome... era o meu!

segunda-feira, 18 de abril de 2016

#155 - SANTO ANTÓNIO DOS CAVALEIROS (José do Carmo Francisco)

Um pequeno cais sem pedra nem saudade
Acaba num jardim de barcos a fingir
Num horizonte de fumo e de castanhas
Entre anúncios, collants e supermercados

(Não vinha ninguém nesta camioneta)
Minutos pesados se passaram entretanto
O néon dos anúncios do prédio em frente
Acorda-nos dum sonho já pouco perfeito

Outras camionetas vão encher o largo
Alguns indianos, chineses sem palavras
Misturam-se com moçambicanos perdidos
No metro que os engole tão pontualmente

E passam por nós casais quase exemplares
Cada um com um filho que dorme ao colo
E cada filho com o sono mais pesado
(Sem outra mão para os sacos de plástico)

Jornais velhos com notícias já perdidas
Chegam devagar aos pés de quem espera
O frio e o vento não perdoam no cais
E (sabemos) não é ainda esta a camioneta