O jazz
aquece a noite
generoso sopro
substitui a escuridão.
Charlie Parker
passeia
invisível pela sala
se instala
no lado avesso da razão.
A raça humana
cartesiana
sai em busca de outros tons.
sexta-feira, 22 de abril de 2016
quinta-feira, 21 de abril de 2016
# 158 - O FUTEBOL BRASILEIRO EVOCADO NA EUROPA (João Cabral de Melo Neto)
A bola não é a inimiga
como o touro, numa corrida;
e embora seja um utensílio
caseiro e que se usa sem risco,
não é o utensílio impessoal,
sempre manso, de gesto usual:
é um utensílio semivivo,
de reações próprias como bicho,
e que, como bicho, é mister
(mais que bicho, como mulher)
usar com malícia e atenção
dando aos pés astúcias de mão.
como o touro, numa corrida;
e embora seja um utensílio
caseiro e que se usa sem risco,
não é o utensílio impessoal,
sempre manso, de gesto usual:
é um utensílio semivivo,
de reações próprias como bicho,
e que, como bicho, é mister
(mais que bicho, como mulher)
usar com malícia e atenção
dando aos pés astúcias de mão.
quarta-feira, 20 de abril de 2016
#157 - "Madre velida, meu amigo vi;" (Airas Corpancho)
Madre velida, meu amigo vi;
non lhi falei e con el me perdi,
e moir' agora, querendo-lhi ben;
non lhi falei, ca o tiv' en desden;
moiro eu, madre, querendo-lhi ben.
Se lh' eu fiz torto, lazerar-mh-o-ei
con gran dereito, ca lhi non falei;
e moir' agora, querendo-lhi ben;
non lhi falei, ca o tiv' en desden;
moiro eu, madre, querendo-lhi ben.
Madre velida, ide-lhi dizer
que faça ben e me venha veer;
e moir' agora, querendo-lhi ben;
non lhi falei, ca o tiv'en desden;
moiro eu, madre, querendo-lhi ben.
non lhi falei e con el me perdi,
e moir' agora, querendo-lhi ben;
non lhi falei, ca o tiv' en desden;
moiro eu, madre, querendo-lhi ben.
Se lh' eu fiz torto, lazerar-mh-o-ei
con gran dereito, ca lhi non falei;
e moir' agora, querendo-lhi ben;
non lhi falei, ca o tiv' en desden;
moiro eu, madre, querendo-lhi ben.
Madre velida, ide-lhi dizer
que faça ben e me venha veer;
e moir' agora, querendo-lhi ben;
non lhi falei, ca o tiv'en desden;
moiro eu, madre, querendo-lhi ben.
terça-feira, 19 de abril de 2016
#156 - A FOLHA DE SALGUEIRO (António Feijó)
Adoro essa mulher moça e formosa,
Que à janela, a sonhar, vejo esquecida,
Não por ter uma casa sumptuosa
Junto ao Rio Amarelo construída...
-- Amo-a porque uma folha melindrosa
Deixou cair nas águas, distraída.
Também adoro a brisa do Levante,
Não por trazer a essência virginal
Do pessegueiro que floriu distante,
No pendor da Montanha Oriental...
Amo-a porque impeliu a folha errante
Ao meu batel, no lago de cristal.
E adoro a folha, não por ter lembrado
A nova primavera que rompeu,
Mas por causa do nome idolatrado
Que essa jovem mulher nela escreveu
Com a doirada agulha do bordado...
E esse nome... era o meu!
Que à janela, a sonhar, vejo esquecida,
Não por ter uma casa sumptuosa
Junto ao Rio Amarelo construída...
-- Amo-a porque uma folha melindrosa
Deixou cair nas águas, distraída.
Também adoro a brisa do Levante,
Não por trazer a essência virginal
Do pessegueiro que floriu distante,
No pendor da Montanha Oriental...
Amo-a porque impeliu a folha errante
Ao meu batel, no lago de cristal.
E adoro a folha, não por ter lembrado
A nova primavera que rompeu,
Mas por causa do nome idolatrado
Que essa jovem mulher nela escreveu
Com a doirada agulha do bordado...
E esse nome... era o meu!
segunda-feira, 18 de abril de 2016
#155 - SANTO ANTÓNIO DOS CAVALEIROS (José do Carmo Francisco)
Um pequeno cais sem pedra nem saudade
Acaba num jardim de barcos a fingir
Num horizonte de fumo e de castanhas
Entre anúncios, collants e supermercados
(Não vinha ninguém nesta camioneta)
Minutos pesados se passaram entretanto
O néon dos anúncios do prédio em frente
Acorda-nos dum sonho já pouco perfeito
Outras camionetas vão encher o largo
Alguns indianos, chineses sem palavras
Misturam-se com moçambicanos perdidos
No metro que os engole tão pontualmente
E passam por nós casais quase exemplares
Cada um com um filho que dorme ao colo
E cada filho com o sono mais pesado
(Sem outra mão para os sacos de plástico)
Jornais velhos com notícias já perdidas
Chegam devagar aos pés de quem espera
O frio e o vento não perdoam no cais
E (sabemos) não é ainda esta a camioneta
Acaba num jardim de barcos a fingir
Num horizonte de fumo e de castanhas
Entre anúncios, collants e supermercados
(Não vinha ninguém nesta camioneta)
Minutos pesados se passaram entretanto
O néon dos anúncios do prédio em frente
Acorda-nos dum sonho já pouco perfeito
Outras camionetas vão encher o largo
Alguns indianos, chineses sem palavras
Misturam-se com moçambicanos perdidos
No metro que os engole tão pontualmente
E passam por nós casais quase exemplares
Cada um com um filho que dorme ao colo
E cada filho com o sono mais pesado
(Sem outra mão para os sacos de plástico)
Jornais velhos com notícias já perdidas
Chegam devagar aos pés de quem espera
O frio e o vento não perdoam no cais
E (sabemos) não é ainda esta a camioneta
domingo, 17 de abril de 2016
#154 - JORGE (Camilo Castelo Branco)
Constantemente vejo o filho amado
Na minha escuridão, onde fulgura
A extática pupila da loucura,
Sinistra luz dum cérebro queimado.
Nas rugas de seu rosto macerado
Transpira a cruciantíssima tortura
Que escurentou na pobre alma tão pura
Talento, aspirações... tudo apagado!
Meu triste filho, passas vagabundo
Por sobre um grande mar calmo, profundo,
Sem bússola, sem norte e sem farol!
Nem gosto nem paixão te altera a vida!
Eu choro sem remédio a luz perdida...
Bem mais feliz és tu, que vês o sol.
Na minha escuridão, onde fulgura
A extática pupila da loucura,
Sinistra luz dum cérebro queimado.
Nas rugas de seu rosto macerado
Transpira a cruciantíssima tortura
Que escurentou na pobre alma tão pura
Talento, aspirações... tudo apagado!
Meu triste filho, passas vagabundo
Por sobre um grande mar calmo, profundo,
Sem bússola, sem norte e sem farol!
Nem gosto nem paixão te altera a vida!
Eu choro sem remédio a luz perdida...
Bem mais feliz és tu, que vês o sol.
sábado, 16 de abril de 2016
#153 - CALÇADA DOS MESTRES (Manuel de Freitas)
Três velhas e eu,
na última taberna de Campolide.
Falavam de ir "levantar" os maridos,
o que deles resta.
Mas não estão "capazes":
dois anos debaixo da terra
nem sempre é o bastante.
"O meu João era mais forte do que
o teu" -- trabalho de vermes,
apenas. Também "por esta altura
morreu o Joaquim Sapateiro",
recordam. Como se já só
da morte vivessem
(o que não foge demasiado
à verdade geral:
alimentos em preparação -- ou cinzas).
Há quem tenha estado
dez anos debaixo da terra,
antes de poder ser "levantado"
-- e há quem nunca tenha estado vivo,
acrescenta o autor destes versos,
condensando a tarde numa garrafa vazia.
Estão a perceber agora
por que é que eu gosto tanto
de tabernas?
(Não respondam; o poema termina aqui,
porque a Dona Joana tem de ir ao oculista.)
na última taberna de Campolide.
Falavam de ir "levantar" os maridos,
o que deles resta.
Mas não estão "capazes":
dois anos debaixo da terra
nem sempre é o bastante.
"O meu João era mais forte do que
o teu" -- trabalho de vermes,
apenas. Também "por esta altura
morreu o Joaquim Sapateiro",
recordam. Como se já só
da morte vivessem
(o que não foge demasiado
à verdade geral:
alimentos em preparação -- ou cinzas).
Há quem tenha estado
dez anos debaixo da terra,
antes de poder ser "levantado"
-- e há quem nunca tenha estado vivo,
acrescenta o autor destes versos,
condensando a tarde numa garrafa vazia.
Estão a perceber agora
por que é que eu gosto tanto
de tabernas?
(Não respondam; o poema termina aqui,
porque a Dona Joana tem de ir ao oculista.)
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