Para alguém sou o lírio entre os abrolhos,
e tenho as formas ideais do Cristo,
para alguém sou a vida e a luz dos olhos,
e, se na terra existe, é porque existo.
Esse alguém, que prefere ao namorado
cantar das aves minha rude voz,
não és tu, anjo meu idolatrado!
Nem, meus amigos, é nenhum de vós!
Quando alta noite me reclino e deito
melancólico, triste e fatigado,
esse alguém abre as asas no meu leito,
e o meu sono desliza perfumado.
Chovam bençãos de Deus sobre a que chora
por mim além dos mares! esse alguém
é de meus dias a esplendente aurora,
és tu, doce velhinha, ó minha mãe!
segunda-feira, 7 de março de 2016
domingo, 6 de março de 2016
#123 "Mha senhor fremosa, direi-vos ua rem:" (Nuno Eanes Cerzeo)
Mha senhor fremosa, direi-vos ua rem:
vós sodes mha sorte e meu mal e meu bem!
E mais... porque vo-lo-ei eu já mais a dizer?...
Mha sorte sodes, que me fazedes morrer!
Vós sodes mha mort' e eu mal, mha senhor,
e quant' eu no mund' ei de ben e de sabor!
E mais... porque vo-lo-ei eu já mais a dizer?...
Mha sorte sodes, que me fazedes morrer!
Mha mort' e mha coita sodes, non á i al,
e os vossos olhos mi fazen ben e mal!
E mais... porque vo-lo-ei eu já mais a dizer?...
Mha sorte sodes, que me fazedes morrer!
Senhor, ben me fazen soo de me catar,
pero ven-m 'en coita grand'; e vos direi ar:
E mais... porque vo-lo-ei eu já mais a dizer?...
Mha sorte sodes, que me fazedes morrer!
vós sodes mha sorte e meu mal e meu bem!
E mais... porque vo-lo-ei eu já mais a dizer?...
Mha sorte sodes, que me fazedes morrer!
Vós sodes mha mort' e eu mal, mha senhor,
e quant' eu no mund' ei de ben e de sabor!
E mais... porque vo-lo-ei eu já mais a dizer?...
Mha sorte sodes, que me fazedes morrer!
Mha mort' e mha coita sodes, non á i al,
e os vossos olhos mi fazen ben e mal!
E mais... porque vo-lo-ei eu já mais a dizer?...
Mha sorte sodes, que me fazedes morrer!
Senhor, ben me fazen soo de me catar,
pero ven-m 'en coita grand'; e vos direi ar:
E mais... porque vo-lo-ei eu já mais a dizer?...
Mha sorte sodes, que me fazedes morrer!
sábado, 5 de março de 2016
#122 - O ÚLTIMO ADEUS DUM COMBATENTE (Vasco Cabral)
Naquela tarde em que eu parti e tu ficaste
sentimos, fundo, os dois a mágoa da saudade.
Por ver-te as lágrimas sangrarem de verdade
sofri na alma um amargor quando choraste.
Ao despedir-me eu trouxe a dor que tu levaste!
Nem só o teu amor me traz a felicidade.
Quando parti foi por amar a Humanidade
Sim! foi por isso que parti e tu ficaste!
Mas se pensares que eu não parti e a mim te deste
será a dor e a tristeza de perder-me
unicamente um pesadelo que tiveste.
Mas se jamais do teu amor posso esquecer-me
e se fui eu aquele a quem tu mais quiseste
que eu conserve em ti a esperança de rever-me!
sentimos, fundo, os dois a mágoa da saudade.
Por ver-te as lágrimas sangrarem de verdade
sofri na alma um amargor quando choraste.
Ao despedir-me eu trouxe a dor que tu levaste!
Nem só o teu amor me traz a felicidade.
Quando parti foi por amar a Humanidade
Sim! foi por isso que parti e tu ficaste!
Mas se pensares que eu não parti e a mim te deste
será a dor e a tristeza de perder-me
unicamente um pesadelo que tiveste.
Mas se jamais do teu amor posso esquecer-me
e se fui eu aquele a quem tu mais quiseste
que eu conserve em ti a esperança de rever-me!
sexta-feira, 4 de março de 2016
#121 - FAROL ETERNO (Cândido Guerreiro)
Decorreram os anos. Pouco a pouco,
O vendaval, à solta, por vingança,
Quebra os vitrais e pela igreja avança,
E rompe em uivo prolongado e rouco...
E foge, e torna, e, com a chuva, louco,
Em desvairado sacrilégio, dança,
E abate claustros e ao abismo os lança,
E tudo alui, da abóbada ao cabouco...
Tudo caíu... Mas uma claridade,
Azul, fugaz, em noites muito escuras,
Ondula e sobe e, entre os escombros, erra...
-- Oh! a sobrevivência da piedade! --
São fogos fátuos, são as sepulturas
Ainda agora a alumiar, da terra...
O vendaval, à solta, por vingança,
Quebra os vitrais e pela igreja avança,
E rompe em uivo prolongado e rouco...
E foge, e torna, e, com a chuva, louco,
Em desvairado sacrilégio, dança,
E abate claustros e ao abismo os lança,
E tudo alui, da abóbada ao cabouco...
Tudo caíu... Mas uma claridade,
Azul, fugaz, em noites muito escuras,
Ondula e sobe e, entre os escombros, erra...
-- Oh! a sobrevivência da piedade! --
São fogos fátuos, são as sepulturas
Ainda agora a alumiar, da terra...
quinta-feira, 3 de março de 2016
#120 - SONETO DA VISITAÇÃO (António Sardinha)
Vinde, adorai! Criados e parentes!
Tenho o presépio em nossa casa armado.
Vinde adorar o meu menino amado,
Honrá-lo com carinhos, com presentes!
Muito quietinho, nas roupinhas quentes,
O infante dorme, dorme aconchegado.
É lindo, pois não é? o meu morgado?
Que tu, Senhor, em graça mo aviventes!
E, de joelhos, com um ar de boda,
Adora e pasma-se a assistência toda,
Como diante dum festivo altar.
Que perfeição! Que enlevo de criança!
-- E pedem num louvor que não descansa
Que Deus nos dê saúde p'ra o criar.
Tenho o presépio em nossa casa armado.
Vinde adorar o meu menino amado,
Honrá-lo com carinhos, com presentes!
Muito quietinho, nas roupinhas quentes,
O infante dorme, dorme aconchegado.
É lindo, pois não é? o meu morgado?
Que tu, Senhor, em graça mo aviventes!
E, de joelhos, com um ar de boda,
Adora e pasma-se a assistência toda,
Como diante dum festivo altar.
Que perfeição! Que enlevo de criança!
-- E pedem num louvor que não descansa
Que Deus nos dê saúde p'ra o criar.
quarta-feira, 2 de março de 2016
#119 - "e sequem-se-me os dedos a cabeça" (Fernando Assis Pacheco)
e sequem-se-me os dedos a cabeça
estoire e não fique de tudo uma palavra
se a maldição for tanta que eu te esqueça
e não reste sequer o chão e não de quantas ruas e
não já reste cidade
e seja a memória deste homem um escárnio ocultado por quinze
[gerações de vindouros
com seus cães que se deitam aos pés das pessoas e parecem
[adivinhar a linguagem monstruosa
das narinas resfolegando
se a maldição for tanta e tão pérfida
que eu te esqueça na morte, que eu te esqueça
estoire e não fique de tudo uma palavra
se a maldição for tanta que eu te esqueça
e não reste sequer o chão e não de quantas ruas e
não já reste cidade
e seja a memória deste homem um escárnio ocultado por quinze
[gerações de vindouros
com seus cães que se deitam aos pés das pessoas e parecem
[adivinhar a linguagem monstruosa
das narinas resfolegando
se a maldição for tanta e tão pérfida
que eu te esqueça na morte, que eu te esqueça
terça-feira, 1 de março de 2016
#118 - "na hora de pôr a mesa, éramos cinco:" (José Luís Peixoto)
na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.
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