domingo, 31 de janeiro de 2016

#88 - THE LAST ROSE... (Fausto Guedes Teixeira)

"Tu m'as dit un jour, en regardant la mer bleue
-- oh! aussi bleue que mes yeux: "Miss,
l'Amour (et tu as ri!) l'Amour est un
adorable mensonge... qui nous saisit."

Miss dos Olhos-Azuis, Tranças-Escuras,
Minha enigmática Senhora Inglesa,
Nos teus cabelos eu bebo loucuras,
Deitado nos teus olhos de turquesa!

Sorvo em teu corpo o aroma da Beleza
Sonâmbula de antigas Miniaturas:
E no teu colo esbelto, sem magreza,
O orvalho das ofélicas Alvuras.

Mulher única! em ti vivo o meu Sonho:
E é só de sonho a Alma que tu sondas
Com pesos d'astros no olhar risonho...

Na vida o Amor, e digo-to chorando,
É, como ouviste já -- olhos nas ondas --
Pretexto apenas pra sofrer... cantando!


sábado, 30 de janeiro de 2016

#87 - NOITE E DIA (Nuno Júdice)

E então a noite caiu, para que não se falasse
do cair da noite. A noite caiu tão fria como as
últimas noites que caíram, neste princípio de
Inverno, e ninguém pôs um colchão por baixo
dela para que a noite não se magoasse, ao cair.
A noite limitou-se a cair, e com ela caiu o céu
sem lua, com todas as estrelas do universo a
caírem com ela. Só os olhos não caíram, porque
para verem o céu e as estrelas que o enchiam
tiveram de se levantar. E foi preciso falar
do cair da noite para que os olhos tomassem
a direcção do céu, e descobrissem tudo o que
havia no céu sem lua. «Deixem cair a noite»,
disse alguém. E logo alguém pediu que o
dia se levantasse, como se uma coisa estivesse
ligada a outra. Então, o dia levantou-se da
noite que caiu; e a noite caiu sobre o dia
que se levantava, para que a sua queda fosse
amparada pelo colchão do dia, e as estrelas
tivessem onde pousar, à medida que caíam.




#86 - JANELAS DE ESTREMOZ (Sebastião da Gama)

Janela fechada,
cortina corrida...
Nem flor a perfuma,
nem moça a enfeita.
--: Ninguém se lhe assoma.
Janela tão triste,
nem ao Sol aberta...

Em toda a cidade
se repete a história
mil vezes; mil vezes,
se olhares a janela
ou desta ou daquela
casinha caiada,
a vês divorciada
do Sol e de tudo
que graça lhe dera.

Há vinte janelas
na casa da esquina?
-- Na rua de cá
dez estão fechadas;
outras dez, fechadas
na rua de lá.
Ah! tão retraídas!
Ah! tão agressivas!

Que pessoas vivas
foi que as condenaram?

Ó janelas mudas,
pobres prisioneiras!,
que pessoas vivas,
por que expiação,
vivem na prisão
em que vos meteram?

-- sem sol que as aquente...
sem flor que as alegre...

Janela cerrada,
cortina descida...
Mocinha escondida
por trás da janela
-- quanto mais não vale
a rosa encarnada
que a rosa amarela!...



sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

#85 - DO LAVRADOR (Mário de Oliveira)

de tudo plantou na vida
no exato tempo e na hora.

pegando firme na enxada
cavou fundo na memória.

primeiro quando de colo
plantara leite materno,

logo à frente plantaria
brinquedos, livro, caderno.

semeou depois nos brejos
grão de arroz e sua sala:

não tardou que a casa toda
fosse espalhada na vala.

mais tarde deitou seu sono
dentro de cascas de ervilha

cultivou tomate e soja
sem salitre e fantasia.

quarta-feira plantou fava
muitas quintas plantou milho,

pôs de adubo nas raízes
esterco e leite do filho.

curvado sobre si mesmo
plantou de tudo na vida:

mudas tenras e sementes
do que não teve e não tinha.

plantou coisas que o terreno
reduz a brisas, quimera,

quando o outono desce lento
quando explode a primavera.

#84 - "Antes das pontes os rios" (José Carlos González)

Antes das pontes os rios
Antes dos castelos águias
Que levantadas bem altas
São as deusas das escarpas.

Antes do fruto uma onda
De incenso de primavera
De cavalos debandados
Por anos de tanta espera.

Antes de tudo ser ouro
No alambique escondido.

Acordar de noite acesa.
Vertical hora ser vivo.
 
 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

#83 - ENDECHAS (Júlio Dantas)

Feliz de quem tem
Saudades dum bem.

Não as posso ter,
Que a saudade vem
De perder um bem,
Não dum mal perder;
Se tudo é sofrer,
Quem saudades tem
Se não teve um bem?

Tê-las cada dia
Tinha por vontade,
Porque a saudade
Faz-nos companhia:
Mas como a teria,
Se do bem nos vem
E eu não tivesse um bem!

Na vida mortal,
Se é tudo sofrer
Só poderei ter
Saudades do mal:
Ah, triste, afinal
Quem não tem ninguém,
Nem saudades tem!

#82- "Sòzinha no bosque" (Marquesa de Alorna)

Sòzinha no bosque
com meus pensamentos,
calei as saudades,
fiz trégua a tormentos.

Olhei para a lua,
que as sombras rasgava,
nas trémulas águas
seus raios soltava.

Naquela torrente
que vai despedida
encontro, assustada,
a imagem da vida.

Do peito, em que as dores
já iam cessar,
revoa a tristeza,
e torno a penar.