Acendi hoje uma vela
de estearina na fina
mesinha onde escrevo.
Enquanto ela me ardia
da chama para os meus olhos
velhas lembranças seguiam.
E súbito sobre a parede
da velha casa onde moro
o mapa árido e breve
das ilhas do Caboverde.
Que vento não vem ou se agita
no barco em forma de vela
por dentro da casa fechada!
Que voz materna no écran
da ilha difusa difunde
meu nome em projecto?
Acendi hoje uma vela.
E enquanto me ela queimava
por sobre a mesa pessoas
vivas e mortas passavam.
Vela do exílio acendida
na noite de Moçambique:
pesado, inútil veleiro.
Vela do exílio, meu filho
com apenas um sopro apagas
a vela, o exílio não.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
terça-feira, 26 de janeiro de 2016
#79 - INCÊNDIO (Cândido Guerreiro)
Dum amarelo rútilo e sangrento,
Outrora debruçava-se um convento
Sobre a maré tumultuosa e brava...
E, à noite, quando no clamor do vento,
Ao largo, o temporal se anunciava,
E a voz das águas, soluçante e cava,
Punha um trovão nas furnas, agoirento,
Logo, piedosamente, cada monge
Suspendia uma lâmpada à janela,
E tangia a sineta para o coro...
E, no mar alto, o navegante, ao longe,
Via um farol luzir em cada cela,
E cada rocha a arder, em sangue e ouro...
#78 - ESMERALDA (B. Lopes)
Esmeraldas no heráldico diadema,
No lóbulo da orelha cor-de-rosa;
O colo -- arde na luz maravilhosa
De um tríplice colar da mesma gema.
No peito, aberto céu de alvura extrema,
Entre nuvens de tule vaporosa,
Verde constelação, na forma airosa
De principesca e recortada estema.
Agrilhoa-lhe o pulso um bracelete,
Glaucas faíscas desprendendo; ao cinto
Um florão de esmeraldas por colchete;
Nos dedos finos igual pedra escalda...
Mas deixam todo esse fulgor extinto
Os seus dois grandes olhos de esmeralda!
No lóbulo da orelha cor-de-rosa;
O colo -- arde na luz maravilhosa
De um tríplice colar da mesma gema.
No peito, aberto céu de alvura extrema,
Entre nuvens de tule vaporosa,
Verde constelação, na forma airosa
De principesca e recortada estema.
Agrilhoa-lhe o pulso um bracelete,
Glaucas faíscas desprendendo; ao cinto
Um florão de esmeraldas por colchete;
Nos dedos finos igual pedra escalda...
Mas deixam todo esse fulgor extinto
Os seus dois grandes olhos de esmeralda!
#77 - TRISTÍSSIMA CANÇÃO (Guilherme de Faria)
Nesta saudade em que vivo
Há um mistério que eu estranho:
É pesar-me o bem que tive
Mais do que os males que tenho.
E ainda é maior a amargura,
Lembrando que o bem passado
Foi menos do que mesquinho,
pois foi apenas sonhado!
Nasceu dos meus pensamentos
Altivos e namorados,
E fez, morrendo, a harmonia
Dos meus versos magoados...
E mesmo assim, que saudade
Eu tenho, de encanto estranho,
Que lembra o bem que eu não tive,
E é o maior mal dos que eu tenho!...
segunda-feira, 25 de janeiro de 2016
#76 - CÃOZINHO (Sidónio Muralha)
Eu tenho um cão
muito pequenino
que me cabe na mão
e não é ladino...
Só se põe a correr
se o seu menino
lhe mexer...
Não come carne nem peixe
mesmo que o deixe...
Nem trinca chocolates e bolos
como os cães tolos...
Nem come sopinha
por mais que lha dê...
E não bebe leite
antes que se deite
na sua caminha...
E que coma açorda
ninguém se recorda...
Nem papa farinha...
E sabem porquê?
Ninguém adivinha?
-- é que o patetinha
é um cão de corda.
muito pequenino
que me cabe na mão
e não é ladino...
Só se põe a correr
se o seu menino
lhe mexer...
Não come carne nem peixe
mesmo que o deixe...
Nem trinca chocolates e bolos
como os cães tolos...
Nem come sopinha
por mais que lha dê...
E não bebe leite
antes que se deite
na sua caminha...
E que coma açorda
ninguém se recorda...
Nem papa farinha...
E sabem porquê?
Ninguém adivinha?
-- é que o patetinha
é um cão de corda.
#75 - CANÇÃO (António de Navarro)
por que bebo fel e mel,
és tu,
amor meu;
e o filtro que adormeceu
num sonho d'ópio subtil,
desentranhado do núbil perfil
do teu corpo nu,
és inda tu,
amor meu!
O meu espelho de cristal,
emoldurado a marfim e prata
lavrada
por um artista gentil
como Cellini,
ficou quebrado,
ora vê lá tu,
ao reflectir a escarlata
dos teus lábios de rubi,
e a sombra maga do perfil alado
de graça do teu corpo esguio e nu,
e lindo!
Ora vê lá tu;
eu jamais tal vi,
e jamais vejo,
amor meu,
ânfora por que bebo
o mais amargo fel
do mais doce, do mais impossível desejo.
Subscrever:
Mensagens (Atom)






