quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

#55 - CDC/DCD (Ruy Belo)

A natureza em conjunto padece
e como o sofrimento muito a cansa
vinga-se em quem primeiro lhe aparece
e para ser maior essa vingança
já a futura morte transparece
no pequenino rosto da criança.


#54 - JÁ ERA QUASE NOITE (Isabel de Sá)

De novo ao calor da lareira
e ouvindo uma sonata de Beethoven
a memória impõe-me cenas
que não posso rasurar.

A perigosa linguagem do teu corpo,
a beleza das mãos sobre a página
de um livro onde aprendias
o ofício, a fascinante química
dos produtos que ajudam a viver.

Depois já era quase noite
e tarde de mais para recuar.
Tudo estava perdido; a nossa honra,
o dia de estudo, o conceito de amor.


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

#53 - EMBARQUE (Jaime Ferreri)

Não sei se moço
se menino ainda
senti-me embarcado
rumo à morte, à morte...


Quis o destino que com ela me cruzasse
E com raiva duas vezes desdenhasse
Da vontade que mostrava em me apanhar


Não sei se de Deus
se dos Meus que foram
ecoou por África o grito que ouvi
a dizer à morte para me poupar


Não por ser bondoso
ou por ter virtude
mas porque era moço
um menino ainda
que contra vontade
tive d'embarcar...


#52 - A BORBOLETA (Odylo Costa, Filho)

De manhã bem cedo
uma borboleta
saiu do casulo.
Era parda e preta.

Foi beber ao açude.
Viu-se dentro da água.
E se achou tão feia
que morreu de mágoa.

Ela não sabia
-- boba! -- que Deus deu
para cada bicho
a cor que escolheu.

Um anjo a levou,
Deus ralhou com ela,
mas deu roupa nova
azul e amarela.


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

#51 - DESENCANTO (Manuel Bandeira)

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

-- Eu faço versos como quem morre.

Teresópolis, 1912



#50 - "Meu amigu' e meu ben e meu amor," (João Airas de Santiago)

Meu amigu' e meu ben e meu amor,
disseron-vos que me viron falar
con outr' ome, por vos fazer pesar,
e por en rogu' eu a Nostro Senhor
que confonda quen vo-lo foi dizer
e vós, se o assi fostes creer,
e min, se end' eu fui merecedor.

E já vos disseron por mi que falei
con outr' ome, que vos non tiv' en ren,
e, se o fiz, nunca mi venha ben,
mais rog' a Deus sempr' e rogá-lo-ei
que confonda quen vo-lo diss' assi
e vós, se tan gran mentira de mi
crevestes, e min, se o eu cuidei.

Sei que vos disseron, per bõa fé,
que falei con outr' om' e non foi al
se non que vo-lo disserom por mal,
mais rogo a Deus, que no ceo se[e],
que confonda quen vos atal razon
diss' e vós, se a crevestes enton,
e que confonda min, se verdad' é.

E confonda quen á tan gran sabor
d'antre min e vós meter desamor,
ca maior amor no mundo [non] é.


domingo, 10 de janeiro de 2016

#49 - PELAS LANDES, À NOITE (Eugénio de Castro)

Pelas landes e pelas dunas
Andam os magros como pregos,
Os lobos magros como pregos,
Pelas landes e pelas dunas.

Olhos de fósforo, esfaimados,
Numa pavorosa alcateia,
Andam, andam buscando ceia,
Olhos de fósforo, esfaimados.

Nas landes grandes, junto às dunas,
Um menino perdido anda,
Anda perdido a chorar anda,
Nas landes, junto às brunas dunas.

Senhor Deus de Misericórdia,
Protegei o róseo menino,
Protegei o róseo menino,
Senhor Deus de Misericórdia.

Porque nas landes e nas dunas
Andam os magros como pregos,
Os lobos magros como pregos,
Nas grandes landes e nas dunas.