segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

#51 - DESENCANTO (Manuel Bandeira)

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

-- Eu faço versos como quem morre.

Teresópolis, 1912



#50 - "Meu amigu' e meu ben e meu amor," (João Airas de Santiago)

Meu amigu' e meu ben e meu amor,
disseron-vos que me viron falar
con outr' ome, por vos fazer pesar,
e por en rogu' eu a Nostro Senhor
que confonda quen vo-lo foi dizer
e vós, se o assi fostes creer,
e min, se end' eu fui merecedor.

E já vos disseron por mi que falei
con outr' ome, que vos non tiv' en ren,
e, se o fiz, nunca mi venha ben,
mais rog' a Deus sempr' e rogá-lo-ei
que confonda quen vo-lo diss' assi
e vós, se tan gran mentira de mi
crevestes, e min, se o eu cuidei.

Sei que vos disseron, per bõa fé,
que falei con outr' om' e non foi al
se non que vo-lo disserom por mal,
mais rogo a Deus, que no ceo se[e],
que confonda quen vos atal razon
diss' e vós, se a crevestes enton,
e que confonda min, se verdad' é.

E confonda quen á tan gran sabor
d'antre min e vós meter desamor,
ca maior amor no mundo [non] é.


domingo, 10 de janeiro de 2016

#49 - PELAS LANDES, À NOITE (Eugénio de Castro)

Pelas landes e pelas dunas
Andam os magros como pregos,
Os lobos magros como pregos,
Pelas landes e pelas dunas.

Olhos de fósforo, esfaimados,
Numa pavorosa alcateia,
Andam, andam buscando ceia,
Olhos de fósforo, esfaimados.

Nas landes grandes, junto às dunas,
Um menino perdido anda,
Anda perdido a chorar anda,
Nas landes, junto às brunas dunas.

Senhor Deus de Misericórdia,
Protegei o róseo menino,
Protegei o róseo menino,
Senhor Deus de Misericórdia.

Porque nas landes e nas dunas
Andam os magros como pregos,
Os lobos magros como pregos,
Nas grandes landes e nas dunas.


sábado, 9 de janeiro de 2016

#48 - "Amanhece" (Daniel Maia-Pinto Rodrigues)

Amanhece
e no espreguiçar dos olhos
absorvo a tontura do novo dia

Ao sair do quarto
atravesso o branco sujo da manhã
tropeço na claridade da primavera
e vou tomar café com muito açúcar

Levo um pastel de Tentúgal para a varanda
e mastigo-o ouvindo as harpas da cidade

E quanto tu chegas de roupão
bebendo o teu cacau
explico-te num gesto amplo de incertezas
o horizonte com barcos


#47 - IMBONDEIROS (Maria Augusta Silva)

Andamos com um arco e uma flor
à roda
dos imbondeiros. Descalços
porque
queremos estar descalços.
Sobe
ao arco a alegria com muitas
cores
dependuradas nos nossos cabelos.
Nada
disto se dissolve em metafísica.
Temos
um arco e uma flor. E isso é que é
divino


sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

#46 - "límpidas de dor, velhas" (Valter Hugo Mãe)

límpidas de dor, velhas
deles, matam-nos assim
que adormecem, servem-se do
machado e não os deixam
muito tempo no sono, não
vão sonhar que agarram a arma
antes que elas o façam, e afirmam
que os lamentam, esmagados,
elas aos gritos.


quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

#45 - ROSAS E CANTIGAS (Afonso Duarte)

Eu hei-de despedir-me desta lida,
Rosas? -- Árvores! hei-de abrir-vos covas
E deixar-vos ainda quando novas?
Eu posso lá morrer, terra florida!

A palavra de adeus é a mais sentida
Deste meu coração cheio de trovas...
Só bens me dê o céu! eu tenho provas
Que não há bem que pague o desta vida.

E os cravos, manjerico, e limonete,
Oh! que perfume dão às raparigas!
Que lindos são nos seios do corpete!

Como és, nuvem dos céus, água do mar,
Flores que eu trato, rosas e cantigas,
Cá, do outro mundo, me fareis voltar.