segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

#37- G. F. H. (José do Carmo Francisco)

E de novo me confronto consigo sem coragem
Repare que não estamos em Dublin
Nem este nevoeiro é o seu nesta manhã
Nem o disco reproduz totalmente a sua escrita.

Encolho-me nas definições de quem percebe
Cito Beethoven com facilidade mas não chega
E a sua perfeição não me provoca qualquer náusea
Antes me atrevo a repetir as audições

Se a perfeição existe você é então perfeito
Os sons arrumados na pauta são desenhos
E a realidade que retratam não existe
Apenas o seu mundo a compreende


#36 - POEMA DE FINADOS (Manuel Bandeira)

Amanhã que é dia dos mortos
Vai ao cemitério. Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.

Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho tem mais precisão.

O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero,
E em verdade estou morto ali.


#35 - LEZÍRIA (Miguel Torga)

São duzentas mulheres. Cantam não sei que mágoa
Que se debruça e já nem mostra o rosto.
Cantam, plantadas n'água,
Ao sol e à monda neste mês de Agosto.

Cantam o Norte e o Sul duma só vez,
Cantam baixo, e parece
Que na raiz humana dos seus pés
Qualquer coisa apodrece.


#34 - SENTIMENTOS DE CONTRIÇÃO E ARREPENDIMENTO DA VIDA PASSADA (Bocage)

Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões que me arrastava:
Ah!, cego eu cria, ah!, mísero, eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana:

De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua orgia dana.

Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos;

Deus, ó Deus!... Quando a morte à luz me roube
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.


sábado, 2 de janeiro de 2016

#33 - MINHA MÃE (Thales de Melo)

Alguém há, coração de bondade e candura,
Que o meu tormento e as minhas mágoas amortece.
Para quem minha voz tem a maior ternura.
Para quem o meu nome é um resumo de prece.

Alguém que me acompanha e sofre e se tortura,
Se me torturo e sofro. Alguém que não me esquece;
Que faz do meu prazer toda a sua ventura;
Que se alegra comigo e comigo entristece.

Alguém que me adivinha os menores desejos;
Que sorri, se sorrio; e se desfaz em beijos;
E, feliz, me abençoa em seu amor profundo.

Alguém que se revê nos meus olhos sem brilho;
Alguém que tem orgulho em me chamar de filho:
-- Minha Mãe, doce Mãe que Deus me deu no mundo.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

#32 - PORQUE (Sophia de Mello Breyner Andresen)

Porque os outros se mascaram mas tu não.
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se comprem e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


#31 - CERTIDÃO DE NASCIMENTO (David Mourão-Ferreira)

Tão regaço estas arcadas
Tão de brinquedo os eléctricos
Vejo a cidade parada
no ano de vinte e sete
Dela por vezes me evado
mas sempre a ela regresso
Bem sei eu que não desato
o cordão com que me aperta
Vejo seus gestos de grávida
medidos cautos emersos
nessa jovem gravidade
que só grávidas conhecem
Que frescor de madrugada
no terror com que me espera
Mas têm sempre a idade
que em sonho os filhos decretam
Recordo melhor a data
Até mesmo a atmosfera
É o dia vinte e quatro
de um mês a tremer de febre
com armas grades e o rasto
de um sangue que nunca seca
Só seis decénios passaram
rápidos como seis séculos
Tão pouco Mas neles cabem
cidades arcadas eléctricos
nesta imensa claridade
irmã gémea do mistério